Érico Andrade
UFPE
12 Dez 2017

A imagem do colega Adriano Correia (atual presidente da Anpof) é precisa: “não cabemos mais numa van”. De fato, a pós-graduação na área de filosofia conheceu um crescimento quase exponencial. Esse crescimento foi reconhecido e homologado pela CAPES com a autonomia conferida à nossa área em face da área de teologia. Avançamos. Gostaria, contudo, de fazer algumas ressalvas. Começarei por ampliar a referida imagem proposta por Adriano Correia e em seguida trago algumas questões para pensarmos juntos.

Nunca coubemos numa van. A despeito do, repito, inconteste crescimento da nossa área tanto em número como em qualidade – agora me refiro ao texto de outro colega, Vinícius Figueiredo (atual coordenador da área) –, a filosofia brasileira sempre foi diversa e com produção diversificada. Claro, éramos um número menor; mas o suficiente para não cabermos numa van. Mas, havia uma van. Aliás, existiam três vans. CNPq, ANPOF e CAPES. Essas vans foram, durante um bom tempo, conduzidas por um pequeno número de pessoas composto por rareadas mulheres, todas brancas, claro, e por um número bem mais acentuado de homens; não menos brancos.

Embora já houvesse quadros importantes no Nordeste, a filosofia brasileira andava sempre pelas mesmas rotas cujo arco institucional englobava ainda Minas e o Rio Grande do Sul, mas tinha em São Paulo e no Rio de Janeiro o seu endereço fixo. Na CAPES, Rio e São Paulo se revezavam na direção. No CNPq, um grupo mais extenso, mas sempre com a presença cativa do Rio e de São Paulo. Na ANPOF as mudanças ocorreram mais cedo com um nordestino na frente da entidade. No entanto, todas as estradas levavam sempre ao mesmo lugar porque sempre foram trilhadas pelas mesmas pessoas: professores e professoras e seus alunas e alunas, também professores, comandavam a filosofia no Brasil.

Sem dúvida, a nossa área mudou, mas foi preciso que São Paulo não coubesse mais em si ou mais precisamente na USP para que a filosofia se estendesse para além do Butantã e ganhasse casa em Curitiba, em outros lugares do Sul, Sudeste e também em São Paulo. O quadro da distribuição de notas da avaliação da pós-graduação, bolsas de produtividade do CNPq e presidência da ANPOF acompanhou um pouco essa mudança. Um pouco.

Mesmo com todo avanço e consolidação de programas de filosofia no Brasil vemos que as bolsas de produtividade continuam concentradas no mesmo eixo, agora um pouco mais estendido, a despeito da produção de qualidade de vários programas do Nordeste, os quais contam nos dedos a quantidade de bolsistas PQ. Na CAPES houve mudanças importantes, mas ainda é possível ver rostos, quase sempre brancos e masculinos, de pessoas que têm cadeira cativa nas comissões nacionais de avaliação. Na ANPOF, a eleição de um único nordestino parece ter sido um caso isolado e não uma política clara de desconcentração regional das entidades deliberativas e significativas da filosofia.

 

Nessa perspectiva, avançamos sim, mas os mecanismos políticos e institucionais não parecem acompanhar ainda uma desconcentração regional, uma diversidade étnica, nem muito menos de gênero. A menos que se acredite, como em tempos mais remotos de fato se acreditou, que certas disposições físicas, das mais variadas naturezas, são óbice à filosofia, não há razões para que a próxima coordenação de área não seja governada por uma delicada atenção a essas questões. 


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