Orlando Franceschelli, Tradução de Marcio Gimenes de Paula
23 Mar 2020

Que a humanidade seja capaz de enfrentar com coragem, determinação e solidariedade também as provas mais desafiadoras da vida e da história, é notório. E o confirmam também os flashmob com os quais os italianos manifestam a própria reação contra a atual epidemia e sua gratidão por pesquisadores, médicos, enfermeiros, voluntários que nesta luta comum se encontram na linha de frente.


Desta nossa capacidade de re-agir – ou resiliência- especialmente nestes dias e de tudo compreensivelmente se ouve falar também com acentos bélicos: estamos em guerra contra um inimigo invisível e ninguém deve desertar. Como em vez disso fazem sempre aqueles que, com maior ou menor cinismo, mesmo na mais grave calamidade buscam apenas compreender como desfrutar o melhor somente para os próprios fins egoísticos: economistas, políticos, de vã notoriedade. Mas deixemos ademais no seu mister os parasitas do sofrimento. É para aqueles que são solidários com aqueles que são atingidos majoritariamente por essa epidemia que quero fazer uma modestíssima proposta, na esperança que não soe excessivamente estranha.


O auspício que muito e justamente se ouve nestes dias é que da “guerra” contra a atual epidemia se possa sair não apenas o quanto antes, mas também melhorados. É exatamente aqui o ponto: o que significa vencer a guerra contra o vírus e melhorarmos a nós mesmos? Indubitavelmente significa conter e no final derrotar a pandemia. Mas não deveria significar também acrescentar a nossa crítica consciência de como devemos nos comportar no futuro para não nos encontrarmos de novo em similares situações?Devemos vencer para poder começar tudo como antes?


Eis: quero propor uma espécie de flashmob filosófico que nos estimule a dedicar alguma reflexão também a este problema: se de fato estamos em guerra, contra o que devemos lutar para vencê-la efetivamente? Somente contra os vírus que sobre a face da Terra estão antes de nós seres humanos? Ou também contra as concepções e os comportamentos de nós “sapiens” que estamos transformando a Terra de ambiente- habitável em ambiente-pesadelo para um número sempre crescente de seres vivos?

A começar obviamente dos seres humanos e dos animais- não humanos mais frágeis e mais pobres.

É fácil e completamente racional pensar que a estas questões toda mulher e todo homem responderá com os acentos (filosóficos, ético-políticos, religiosos) que majoritariamente ouve nas próprias cordas. Mas arrisco uma previsão: destes flashmob filosóficos nenhum de nós, como pessoa e como cidadão, sairá melhor. E talvez mais do que qualquer poder fazer ou refazer – admirável dizer- também a mais interessante das descobertas. Aquela mais intimamente ligada ao nascimento e ao desenvolvimento da própria filosofia, nomeadamente – literalmente – da pesquisa do saber-sabedoria a qual também nós seres humanos podemos legitimamente aspirar: a descoberta que existe uma realidade natural e que dessa somos parte também nós seres humanos, com as nossas histórias individuais e com toda a história da nossa espécie. Apenas parte. Mais: "pequena parte", como advertia já Espinosa, não proprietários, dominadores, predadores e quem tem mais se impõe.


Se portanto a vitória que nos interessa obter sobre o coronavírus não é voltar o quanto antes às concepções e comportamentos pré-pandêmicos, mesmo alguns modestos flashmob filosóficos podem nos ajudar a compreender que sairemos melhores dessa pandemia apenas se, e somente se, soubermos nos confrontar criticamente com a descoberta ou re-descoberta há pouco relembrada: com o fato de que "podemos afastar a natureza com um grande garfo, todavia ela sempre retornará / e furtivamente se insinuará entre os obstáculos que se interpõem no seu caminho" (Horácio, Epístolas, I, 10, 24-25). Vale dizer: tu ser humano podes também negligenciar o fato de seres parte da natureza. Mais: nos confrontos da natureza podes ser mesmo arrogante. Mas em realidade o teu pertencimento a mãe natureza (antropologia do eco-pertencimento) antes ou depois torna sempre a se fazer sentir. Antes ou depois a mãe natureza retorna – mas quando ela se foi? – quando toda a sua indiferença ao nosso destino, ao nosso bem e ao nosso mal, com toda a sua potência sobre-humana do infinitamente pequeno, e do infinitamente grande: como vírus, como terremoto, como água e ar poluído, como desertificação, extinção de espécies, crise ecológica que não é exagerado definir epocal..


E por que não: pode voltar também como oportunidade de melhorar nós mesmos. Como nossa resiliência à crise. É inegável de fato que da realidade natural fazemos parte também nós seres humanos, com o nosso compromisso de melhorar as concepções, comportamentos, tentativas de sermos felizes, na medida do possível, e solidário para com todas as formas de sofrimento, Este é o saber-sabedoria que somos solicitados a pesquisar – e praticar – da filosofia, nascida exatamente como "indagação sobre a natureza". E cujos cultivadores - permitam-me este último esclarecimento - um eminente representante da Grécia clássica ouvimos falar nestes termos: «Bem-aventurado aquele que aprendeu com esta investigação. Ele não causa sofrimento aos concidadãos e nem ações injustas, mas investiga a ordem eterna da natureza imortal e pergunta: com que finalidade surgiu, de que maneira, quando? Alguém assim nunca é presa de pensamentos e ações más e das quais deveria se envergonhar (Euripides, Frammenti, n. 910). Apenas um similar elogio de uma autêntica pesquisa filosófica veio à minha mente lendo a resposta de David Quammen - um estudioso e popularizador que durante anos alertou contra os riscos da passagem de vírus de uma espécie para outra - à questão de saber se o coronavírus pode ser chamado de vingança da natureza sobre o homem: "Não creio na metáfora da ‘vingança da natureza’ que tende a personificar a Natureza como uma entidade sábia, com o seu fim e sua vontade. Não sou assim romântico. Concebo a natureza como a concebia Darwin: [...] Aquilo que os outros vêem como uma vingança da natureza, eu descreveria assim:ecossistemas complexos abrigam animais, plantas, fungos, bactérias e outros organismos celulares; e todos esses organismos celulares abrigam vírus. Se decidirmos comprometê-los, o fazemos por nossa conta e risco" (Huffpost", 9 de março de 2020, entrevista aos cuidados de S. Baldolini). Nisso, tinha razão Horácio, como um bom sábio epicurista: verdadeiramente faremos bem em não nos surpreendermos jamais com o retorno da mãe natureza. E quanto mais hoje que dispomos de conhecimentos científicos que somente os estultos poderão subestimar.


A última intenção destas considerações é trair o espírito de espontânea agilidade que anima sempre todo autêntico flashmob. Espírito com o qual me pareceu possível, interessante e oportuno comunicar-me com vários, especialmente em face da atual pandemia, eles ouvem o peso e o fascínio de uma resiliência também educativa. Na convicção que encontrar qualquer minuto para reativar também a nossa reflexão filosófica sobre como sair melhores desta guerra ‘contra’ o coronavírus, não é deserção do fronte comum. E ainda menos gosto por polêmicas que dividem. Ou pelos vaidosos discursos dos doutos.


Mais simplesmente e bem sabendo que leituras e ocasiões para os necessários aprofundamentos individuais e coletivos certamente não faltarão: é um convite a tornar explicito o componente reflexivo que me parece animar os flashmob contra esta pandemia. Eles nos lembram que, precisamente ao presente, planetário "urgências da história" (K. Löwith), devemos aprender a reagir também, melhorando a nós mesmos e a nossa sociedade.


Não é esta mensagem de sábia resiliência também filosófica que, em definitivo, estamos procurando transmitir também nestes dias? Não é na possibilidade de melhorar-nos que vem à luz o sentido mais autêntico e apreciável de cada exortação a compreender sempre melhor as coisas – a oportunidade e os limites – que nos interessam como seres humanos e como habitantes deste frágil planeta? De cada exortação a ser mais consciente e nunca esquecer - como de um modo verdadeiramente tocante e exemplar Gramsci soube recomendar ao filho desde ambiente fechado um cárcere – que na história, e mesmo entre os seus desafios mais severos e brutalidade mais atroz, eles sempre agiram, agem e agirão também "os homens viventes [...], todos os homens do mundo enquanto se unem entre si em sociedade e trabalham e lutam e melhoram-se a si mesmos"?

Gramsci concluía a breve carta ao pequeno Délio com um paterno: este modo de olhar a história "não pode não agradar-te mais que qualquer outra coisa. Mas é assim?".


A nós pode bastar o simples augúrio de um bom flashmob também filosófico para todos.

 

Orlando Franceschelli, 16 de março de 2020

_________________________________________________

1- “Um flashmob é um grupo de no minimo 10 pessoas que se reúnem repentina e instantaneamente em ambiente público, realizam uma apresentação atípica por um curto período de tempo e rapidamente se dispersam do ambiente como se nada tivesse acontecido” (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Flash_mob. Acessado em 19.03.2020. (Nota do tradutor)

______________________________________

[Tradução de Marcio Gimenes de Paula. Agradeço ao Prof. Marcos Aurélio Fernandes pela preciosa leitura e sugestões de melhoria na tradução]

Publicado em: https://karllowith.jimdofree.com/principio-natura/i-contributi/franceschelli-virus-madre-natura/
Acessado em 19.03.2020


FaLang translation system by Faboba