Revista Em Construção - Chamada para Dossiê temático: Crise

Chamada para Dossiê temático: Crise

Organizador: Leonardo Rogério Miguel – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)

Revista Em Construção torna pública a chamada de trabalhos (artigos, ensaios, resenhas e traduções) para o dossiê temático Crise, organizado pelo professor Leonardo R. Miguel (UENF). A publicação está prevista para o terceiro número da revista em dezembro de 2018. Os trabalhos devem ser enviados diretamente para o site da revista e devem estar em conformidade com as normas de publicação (disponíveis em http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/emconstrucao/about/submissions#onlineSubmissions).

Prazo para o envio: 01 de julho de 2018.


Além dos artigos para o dossiê, a Revista Em Construção também recebe, em fluxo contínuo, outras contribuições (artigos, resenhas e traduções) sobre epistemologia histórica e estudos sobre ciências.

“Crise”

Nossa pretensa familiaridade com o termo “crise” tem o potencial para provocar mais instabilidade e incertezas do que os fenômenos que o mesmo pretende designar. Estamos enredados em crises, há a crise de tudo, assim é dito. Crise civilizatória, crise econômica, crise política, crise dos valores, crise das instituições, crise da fé, crise existencial, crise da universidade. A lista segue aumentando ao sabor dos acontecimentos, das tensões, da perplexidade geral e de todo tipo de emoção ligada à “circunstâncias desfavoráveis” ou a “momentos de revelação de oportunidades”. Afirmar a crise de qualquer coisa parece dotar o enunciador de alguma capacidade considerável para realizar diagnósticos ou prognósticos – a partir de alguma perspectiva supostamente privilegiada – sobre o que está em jogo (especialmente, quando se fala em “decadência” e/ou “necessidade de mudança”). Além disso, a alegação de um “estado de crise” pode ser usada, leviana ou cinicamente, como desculpa (e não justificativa) para uma consequência indesejável de planos malconduzidos ou deliberadamente escusos. Ou seja, liberaria os indivíduos de todo e qualquer envolvimento com o caso (Bauman; Bordoni, 2016). Nesse sentido, alarmes de crise se apresentam tão-somente como cortinas de fumaça para encobrir a complexidade das situações, como ilusões para agitar ou docilizar o público diante de falsas opções e da suspenção da capacidade de tomar decisões, beneficiando aqueles que se aproveitam das confusões, das esperanças, dos impasses e eventuais oportunidades provocados em circunstâncias chamadas “críticas”.

Em seu sentido originário, “crise” (do grego krisis) aparece no âmbito do direito, da medicina e da teologia, significando “separação”, “decisão”, “juízo”, “escolha”. De modo geral, pode-se dizer que é um momento decisivo dentro de um processo difícil, em que uma escolha precisa ser feita, com discernimento, entre alternativas opostas como, por exemplo, o certo e o errado, a vida e a morte, a salvação e a danação (Morin, 1974; Koselleck, 2006). O termo “crítica” tem a mesma raiz de “crise”, significando, grosso modo, que todos os aspectos de algo são questionáveis e demandam revisões, reavaliações, novos juízos. As mesmas demandas podem ser feitas em relação aos empregos triviais do termo “crise”, pois são questionáveis e geram confusões.

Enquanto um conceito político e histórico-filosófico, “crise” expressa mais do que um momento de indefinição – provisório, emergencial ou extraordinário – apresenta-se como evento recorrente, ou crônico, permanente (Casara, 2017). Isto sugere que decisões não são ou não podem/puderam ser tomadas, que as contradições presentes no processo não podem ser superadas – ou não é desejável que sejam superadas. Diante disso, perguntamos: seria a crise “tanto um evento histórico quanto uma condição persistente da vida, e até mesmo a base para uma condição humana transcendente” (Roitman, 2014)? A persistência da crise se impõe por esta ser essencial para consciência humana, por “sermos crise” (Santos, 2010)? Ou a manutenção de “estados de crise” se impõe por ser inerente, funcional e útil a determinado status quo (econômico e político, por exemplo)? Em comparação a que podemos afirmar que estamos em crise? Qual é o estatuto epistêmico de quem realiza diagnósticos do presente e afirma haver uma crise?

A despeito de ser empregado como um lugar-comum na mídia e nas conversas cotidianas, “crise” é um conceito-chave, complexo e interdisciplinar, objeto de muitos campos de conhecimento, tais como, por exemplo, o da história, da filosofia, das ciências sociais, da medicina, da psicologia, da economia. Até mesmo nas ciências naturais, assim como na história e na filosofia da ciência, o conceito de “crise” se faz bastante presente em discussões sobre os fundamentos metafísicos e epistemológicos da física, por exemplo, ou em investigações acerca do modo como as ciências se transformam e progridem (e.g., Husserl, 1936; Kuhn, 1962).

Entre outras coisas, essa brevíssima descrição quer dizer que o conceito de “crise” é importante demais para ser usado de forma vaga, demagógica, equivocada, como um recurso retórico à uma entidade abstrata com o fim de despersonalizar as atribuições de responsabilidade. Assim sendo, a Revista Em Construção aceita contribuições em forma de artigos acadêmicos, ensaios e resenhas que tragam reflexões sobre esse conceito de vasta dimensão semântica. Afinal, estamos falando sobre crise apropriadamente? O objetivo do dossiê “Crise” é trazer esclarecimentos sobre o conceito e seus usos, desembaraçá-lo, de modo a dotar o público em geral de condições para pensar, compreender e agir sobre as circunstâncias e sobre o papel dos atores envolvidos em todos os âmbitos específicos em que qualquer diagnóstico de crise se fez/faz presente – educação, valores, economia, meio ambiente, entre outros.
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