CHAMADA DE ARTIGOS - Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea (v.7, n.3, 2019)

Tema do Dossiê: A ideia de universidade pública e os desafios atuais da formação em filosofia

Prazo para recebimento dos artigos: 30 de setembro de 2019Em tempos de redefinição do lugar social da formação superior, não surpreende que a filosofia seja, talvez, a disciplina mais exposta a dúvidas quanto a sua legitimidade epistemológica e pedagógica. De fato, se a inquietude da autorreflexão é, desde sempre, uma característica de toda ciência humana, em nenhuma área como na filosofia é tão radical a incerteza – ou a riqueza de interpretações – sobre seu estatuto, método, objeto, sua relação com a história, e sobre sua própria existência enquanto esfera específica do conhecimento.

As perguntas não são novas; no entanto, elas sequer são, por sua vez, um marco invariante, independente de transformações históricas e sociais. A partir do iluminismo, enquanto o sistema da formação se fixava cada vez mais em uma justaposição de saberes setoriais, à ideia clássica de filosofia – ciência atemporal de objetos atemporais – começou a se opor a concepção de um “ponto de vista do todo”, desprovido de um objeto próprio, mas porta-voz da destinação humana e socialmente emancipatória da cultura. A história entrou na filosofia como questão de método – tanto sua própria história quanto a contingência histórica em seu potencial, cada vez, não realizado.

Mas, se for assim, os dilemas da filosofia encontram sua contraparte real no mundo das instituições sociais. Na origem do ensino superior moderno está justamente o ideal universalista de formação integral com suas implicações éticas e políticas, um ideal que a especialização crescente nunca cancelou, mas que sobrevive hoje como problema. O enigma da filosofia, portanto, não é senão a pergunta ainda aberta sobre o sentido da universidade pública no interior do projeto democrático de sociedade.

Tal sentido, como se sabe, foi posto novamente em questão nas últimas décadas, devido, por um lado, às transformações na indústria digital e cultural e à crise subsequente das ideias tradicionais de formação e experiência; por outro, a uma ideia de sociedade que inspirou no mundo inteiro reformas universitárias baseadas em critérios de utilidade imediata e adequação às condições dadas do mercado do trabalho. Não por acaso, então, o debate sobre a crise da universidade é acompanhado regularmente – com intensidade particular na atual discussão pública brasileira – pelo questionamento da função pedagógica e social das ciências humanas e, entre elas, da filosofia como caso ao mesmo tempo extremo e paradigmático.

Frente a esses desafios, as tentativas de legitimação do ensino da filosofia não saem, na maioria das vezes, de uma alternativa abstrata: a filosofia como “ciência” entre as outras, com métodos e objetos claramente delimitados, ou como “atividade” dirigida à promoção de um “ponto de vista crítico” sobre a atualidade. Sem negar a pertinência de ambas as opções, esse número de revista se propõe a estimular uma discussão baseada em experiências e reflexões históricas concretas, para além de declarações gerais de princípio, sobre os problemas da formação filosófica no contexto das transformações sociais recentes, do ponto de vista da concepção moderna de universidade pública, de sua crise e de seus potenciais libertadores ainda latentes. Serão aceitas, portanto, contribuições relativas aos seguintes eixos temáticos:

– a formação em filosofia no contexto das reformas universitárias das últimas três décadas, tanto no Brasil quanto no exterior, e dos respectivos debates sobre as ciências humanas;

– universidade pública, formação filosófica e sociedade na reflexão de autores modernos e contemporâneos, com particular atenção à discussão brasileira e latino-americana;

– a prática filosófica e o cânone: história da filosofia e exercício de pensamento autônomo no ensino; método histórico, método estrutural, método dialógico-problemático;

– a filosofia fora da filosofia: a interação com as demais disciplinas, humanas e naturais, na prática pedagógica;

– a filosofia fora das faculdades de filosofia: experiências, desafios, propostas de ensino da filosofia em outros cursos universitários, em projetos de extensão, na mídia, em movimentos sociais;

– ensino superior e ensino médio: a formação filosófica do ponto de vista de um projeto integrado de educação pública e de sociedade democrática. 

Para submissões e informações, favor acessar: http://periodicos.unb.br/index.php/fmc/index
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