Entrevista com José Meirinhos - “Em tempos difíceis, é papel da Filosofia também ajudar a evitar o desastre”

Por Nádia Junqueira Ribeiro, com contribuição do prof. Dr. Alfredo Storck (UFRGS)*

O presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia esteve na última semana no Brasil para participar do I Congresso da Sociedade Brasileira pelo Estudo da Filosofia Medieval, em Porto Alegre. Na ocasião, José Meirinhos, que também é diretor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto e presidente da Sociedad [ibérica] de Filosofía Medieval, defendeu a obrigação de professores e estudantes de Filosofia resistirem ao ataque que a área vem sofrendo. Para o professor, foram a ciência e a generalização da educação que contribuíram decisivamente para vivermos num mundo melhor e responsabilidade dos professores e estudantes de filosofia continuar a trilhar essa via, resistir e contrariar todas as ameaças.

Segundo o filósofo, não há uma receita mágica para o pensamento ser eficaz. Ele defende, contudo, a argumentação clara, a intervenção pública, a defesa das instituições e de valores partilhados como as vias com que filósofos de todos os tempos contribuíram para o seu próprio tempo. “Cabe-nos fazer o mesmo”, disse o professor. Para ele, quem ataca a Filosofia e as Humanidades julga, equivocadamente, que este campo pode ser separados dos demais das ciências. “Quem começa atacando uma parte do saber, acabará tendo medo e tentando fazer o mesmo com todos os outros campos.  Os que agora atacam a Filosofia estão bem a tempo de compreender o erro que estão cometendo”, comenta.

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"As mulheres sempre existiram na Filosofia” Entrevista - Ruth Hagengruber

Ruth Hagengruber, diretora do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas de Paderborn, defende o papel determinante de mulheres na História da Filosofia


Nádia Junqueira Ribeiro*

As mulheres influenciaram o desenvolvimento do pensamento filosófico e científico de diversas formas ao longo da história. É esta a convicção da filósofa alemã Ruth Hagengruber. Mostrar esta influência é o propósito do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas, do qual é diretora e fundadora, em Paderborn, na Alemanha. Hagengruber esteve no Brasil na última semana durante a I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia Moderna que aconteceu no Rio de Janeiro. A filósofa veio ao evento a convite de Katarina Peixoto, pesquisadora da UERJ, que esteve presencialmente com Hagengruber em Paderborn no ano passado. Naquela ocasião, Ruth disse a ela: vocês devem buscar conhecer as mulheres filósofas da sua história. Não é fato que elas não existiram, vocês apenas não as conhecem.

Hagengruber desenvolve, desde os anos 1990, este trabalho de mostrar como os escritos filosóficos de mulheres, desde a Antiguidade, contribuíram, essencialmente para filosofia. Por esta razão, o centro de Paderborn, além de oferecer aulas, conferências e cursos de verão, reúne entre dois e três mil manuscritos de filósofas digitalizados, disponíveis para estudos e pesquisas. Nesta entrevista ela afirma esta existência das filósofas ao longo da história, se contrapondo ao discurso de que haja um apagamento destas pensadoras. Ela indica como vários filósofos, como Leibniz, Descartes e Locke, sempre se referiram a filósofas e nunca se mostraram desconfortáveis em terem aprendido com mulheres.

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A Filosofia e sua história têm um importante papel a desenvolver na educação

por Katarina Peixoto e Nádia Junqueira Ribeiro

Mundialmente conhecida pelo resgate do trabalho da filósofa Elisabeth de Bohemia, Lisa Shapiro é uma das pesquisadoras que abriu o caminho para pesquisas sobre filósofas invisibilizadas na fixação patriarcal do cânone. Tradutora das Correspondências da Princesa Elisabeth de Bohemia e René Descartes (Chicago, 2007), Shapiro é professora de Filosofia e diretora associada na Universidade Simon Fraser, dos Estados Unidos. Ela, que estará pela primeira vez no Brasil em junho, é uma das referências mundiais na discussão sobre novas narrativas na história da filosofia, métodos de investigação e no estudo do papel das emoções e paixões na filosofia do século XVII.

Shapiro, uma das principais palestrantes da I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia (que aconteceu na Uerj entre os dias 17 e 20 de junho – https://mulheresfilosofiamoderna.wordpress.com/), fala nesta entrevista sobre as dificuldades que enfrentou quando começou este trabalho, há mais de vinte anos. Ela também comenta como hoje em dia há um grande corpo acadêmico constituído e envolvido neste trabalho de reescrever o cânone, incluindo as filósofas. A professora compartilha, nesta entrevista, a experiência que vive hoje nos projetos dos quais faz parte, no Canadá e nos Estados Unidos, e a importância de tradução dos trabalhos destas filósofas para que sejam inseridas em cursos e currículos da filosofia. Atenta às discussões de nossos tempos, Shapiro defende como o ensino sobre as mulheres na história da filosofia pode ajudar a informar discussões contemporâneas. Para ela, a filosofia tem um importante papel no desenvolvimento da educação e do pensamento autônomo.

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Janyne Sattler: a relação entre a filosofia feminista e a militância

Nádia Junqueira Ribeiro*

Vice-coordenadora do GT de Filosofia e Gênero, a professora Dra. Janyne Sattler (UFSC) concedeu entrevista à Anpof neste mês de março e discutiu a relação entre militância e teoria feminista. Sattler apresenta uma perspectiva crítica de como a relação entre militância e filosofia apresenta-se como pejorativa. Segundo a professora, doutora em Filosofia pela Université du Quebéc a Montreal, o que é entendido como militante é compreendido como não filosófico. O que é propriamente “filosófico” é supostamente neutro em termos de postura política, diz Sattler. Para ela, ao se fazer uma filosofia feminista, as filósofas ferem os princípios caros a uma concepção da atividade filosófica.

Nesta conversa, a professora também comenta como a Filosofia, não só no Brasil, está bastante atrasada em relação a outras áreas no que tange à teoria feminista. Ela exemplifica como muito recentemente começamos a ler mulheres negras, como é o caso de Angela Davis que veio a ser traduzida somente em 2017. Além disso, ela explicita como apenas há pouco pesquisadoras como Sueli Carneiro e Lélia Gonzales foram reconhecidas como filósofas.

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Crisóstomo e Ricardo Andrade conversam com Antônio Paim sobre Filosofia no Brasil (1)

Crisóstomo - Você tem um vasto trabalho de história do pensamento filosófico no Brasil, não apenas como historiador das ideias mas também como filósofo. Puxando a brasa para minha sardinha, pois esse é o problema que mais me interessa quando me ocupo de pensamento filosófico brasileiro, entendo que você entra naquela história, trata de encontrar aí verdadeiros desenvolvimentos filosóficos, e sai dela com uma proposta filosófica e uma tarefa para filósofos brasileiros: o Culturalismo. Você e o conjunto de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Filosofia. É isso? Existe mesmo essa posição? Começando, então, pelo fim, o que é esse Culturalismo, que creio você compartilha com mais representantes do IBF? Quais são as suas teses? Trata-se de um humanismo da pessoa, de um neokantismo (incluindo contribuições hegelianas), de um anti-positivismo (embora amigável à ciência)? E, em termos de filosofia política, trata-se de um liberalismo moderado?

Antônio Paim – Eu sou kantiano. Quer dizer, na verdade o kantismo é uma forma de discutir, é um esquema que a sociedade ocidental encontrou para discutir a cultura, não é? A cultura, do ponto de vista marxista, estaria ligada a luta de classes, determinada pela condição proprietária, o que, como kantiano, não aceito. Mas houve em torno disso, no próprio marxismo, uma disputa de doutrina (que descrevo no meu livro Marxismo e Descendência), sobre esse determinismo, até na Rússia soviética. A discussão começou porque, primeiro, no próprio desenvolvimento da ciência, os russos esbarraram numa porção de problemas que saiam do esquema de “lutas de classe”. O ponto de partida foi um livro do Stalin em que ele examinava a questão da linguística: O marxismo e a questão da linguística. Ele diz nesse livro que a língua e a técnica não são parte da superestrutura classista. Então não há língua de classe, nem técnica de classe. Eu estudava na Universidade de Lomonosov e lá esse livro do Stalin “legalizou” de certa forma os estudos linguísticos.

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“Filosofar a partir da perspectiva de mulheres pensadoras desafia senso comum moral”, entrevista com Christine Lopes

Katarina Peixoto*

No mês de junho aconteceu no Rio de Janeiro a I Conferência Internacional Mulheres na Filosofia Moderna, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Foi a primeira Conferência desse porte, dedicada a essa agenda de pesquisa no Brasil, a qual envolve um entrelaçamento incontornável entre método filosófico e história da filosofia com o olhar para a presença e para a voz da mulher. Dra. Christine Lopes é uma filósofa vinculada a uma das escolas que introduziu no Brasil, durante a redemocratização, uma história conceitual da filosofia que utiliza ferramentas analíticas para compreender os textos do repertório clássico do cânone, enquanto mantém uma leitura bem de perto e cuidadosa desses textos.

Lopes, há alguns anos, vive, leciona, e pesquisa filosofia na Inglaterra e optou por se tornar uma filósofa independente. Em 2011 criou o Later German Philosophy project. Lopes participou neste ano de uma conferência internacional em filosofia kantiana na Rússia que celebrou ainda os 295 anos de nascimento do filósofo alemão Immanuel Kant. Ela acaba de integrar um projeto acadêmico internacional em filosofia com base em Lisboa, e ainda em dezembro fará palestras em Berlim e Bayreuth, na Alemanha, sobre sua atual pesquisa sobre ética, moralidade, e afetividade. A filósofa atua ainda como psicoterapeuta treinada e registrada no sistema de saúde público nacional inglês (NHS) coordenando o cuidado e tratamento de pessoas com doenças mentais severas e crônicas.

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Mulheres na Filosofia: "Nós queremos nos juntar a eles, entrar pela porta da frente" Entrevista com Prof. Yara Frateschi (Unicamp)

por Nádia Junqueira Ribeiro

Um breve olhar sobre os currículos de Filosofia no Brasil – e no mundo – e podemos ver que as mulheres filósofas são poucas ou ausentes nas bibliografias, o que não significa, contudo, que elas não existam ou existiram. É este o pano de fundo da I Conferência Internacional das Mulheres na Filosofia Moderna, que traz não apenas pesquisas de filósofas como Émilie du Châtelet e Anne Conway, mas discute a presença destas pensadoras no cânone filosófico. Um mesmo olhar para a presença das mulheres nas pós-graduações e corpo docente de departamentos de Filosofia no Brasil nos conduz a uma conclusão parecida: são minoria. Esta é a razão que levou a professora livre-docente do departamento de Filosofia da Unicamp, Yara Frateschi, a uma das mesas na conferência que aconteceu na última semana na UERJ, no Rio de Janeiro. Ainda que o trabalho acadêmico de Frateschi esteja voltado para filósofas políticas contemporâneas (como Seyla Benhabib e Hannah Arendt), a professora tem se dedicado a compreender os números que revelam esta baixa presença e se engajado em ações que possam transformá-los.

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Entrevista: “É preciso afirmar a potência de um feminismo agonístico”, Carla Rodrigues (UFRJ)

Dra. Franciele Petry, professora UFSC e diretora de comunicação ANPOF

Em entrevista concedida à ANPOF, Carla Rodrigues, Professora do Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora no Programa de Pós-Graduação de Filosofia (IFCS/UFRJ) e bolsista da Faperj, comenta o contexto teórico a partir do qual a crítica de Butler em Problemas de gênero foi desenvolvida, assim como suas implicações no campo da luta política. A professora explica como Butler adotou uma via de conciliação para lidar com “o problema de fazer política feminista supondo uma estabilidade da categoria "mulheres" e nem assim se desfazer do feminismo como forma de luta”. Também esclarece a posição de Butler em relação ao conceito de gênero e comenta as distorções de que se alimentam os críticos ao falarem de uma suposta “ideologia de gênero”.

Refletindo sobre o lugar das mulheres na Filosofia, a professora indica a tarefa que cabe a elas de ir além da denúncia do machismo, alcançando a crítica à misoginia estrutural que autoriza “a violência contra tudo aquilo que carrega a marca do feminino”. Nesse sentido, partindo da contribuição teórica de Butler, propõe que as mulheres pensem em “‘alianças contingentes’ com outros grupos marcados por vulnerabilidade e subalternidade”. A professora destaca, ainda, que considerando as diferenças epistemológicas existentes no campo acadêmico, quando se trata das teorias feministas, há um encontro entre elas na prática política cotidiana, o que não significa que haja uma unidade.

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Entrevista com Silvana Ramos: Uma mulher que entra no curso de filosofia já transgrediu uma série de interditos sociais e culturais da sociedade patriarcal

Professora da USP e Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof comenta a baixa presença das mulheres na Filosofia e a necessidade de combate ao assédio

*Por Nádia Junqueira Ribeiro

Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof e professora de Filosofia da USP, Silvana de Souza Ramos fala nessa entrevista sobre assédio moral e sexual nos programas de pós-graduação em Filosofia e sobre a baixa presença das mulheres na área. A professora, que também coordena o Grupo de Estudos de Filosofia Política da USP, comenta sobre o documento publicado pela Anpof e elaborado pelo GT no fim de 2018 que contém diretrizes para combater assédio e sua importância, uma vez que as estudantes que sofreram ou que afirmam sofrer algum constrangimento ou violência, na maioria das vezes, não se sentem seguras para denunciar o fato às instituições a que pertencem, especialmente em casos de assédio sexual. Ainda que o documento preveja a avaliação qualitativa das ações de prevenção e de combate ao assédio como um elemento decisivo na avaliação dos PPGs pela Capes, ela reforça a necessidade de haver engajamento de todos e todas para que a recomendação se efetive. Para ela, isso passa pela necessidade de se estabelecer uma cultura de combate ao assédio em todas as universidades do país, o que exige a desnaturalização de relações opressivas generificadas e racializadas. Silvana, que também é Editora dos Cadernos Espinosanos, discute os números explicitados pela pesquisa da professora Carolina de Araújo que expressam a baixa presença das mulheres na Filosofia. Para a professora, a pesquisa é um marco para o debate a respeito da desigualdade de gênero em nossa área. Ela comenta que a simples descoberta do baixo percentual de mulheres na área já foi em si uma vitória. Ela salienta sua preocupação com o fato de haver um crescimento vertiginoso dos PPGs em Filosofia no país que, contudo, não enfrentou o desafio de desfazer desigualdades específicas, como as de gênero. Além de outras desigualdades, como as regionais, as de raça e as de classe. Para ela, é hora de enfrentar esses desafios. Para a professora, nossa área apresenta empecilhos para a implantação de mudanças nos parâmetros de avaliação de produtividade, os quais desconsideram as desigualdades de gênero. Silvana avalia o ambiente universitário hostil à presença pensante e autônoma de mulheres.

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Entrevista Linda Alcoff

Linda Alcoff: “Algumas mulheres podem ser vistas como grandes acadêmicas na história da filosofia, mas não são vistas como criadoras intelectuais que desenvolvem novas ideias”

Por Nádia Junqueira Ribeiro

Panamenha, Linda Alcoff é filósofa e professora em The City University of New York nos Estados Unidos. Dos 15 aos 32 trabalhou, como imigrante latina, em subempregos, até que o título de doutora chegou e se tornou professora de Filosofia. Ela veio ao Brasil para participar do XVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia que aconteceu em outubro de 2019 em Vitória/ES. Sua fala foi sobre epistemologia feminista decolonial. Nesta entrevista, a professora aproxima a situação vivida no Brasil com a eleição de Bolsonaro à vivida em seu país, com Trump. A filósofa indica que aqui, assim como lá, mulheres brancas apoiaram a candidatura porque buscam a proteção de seus interesses materiais. Ela indica, contudo, que a liberdade de mulheres brancas ricas só é possível a partir do trabalho de mulheres pobres. Alcoff insere em sua teoria esta distinção, argumentando contra um discurso universal e essencialista sobre mulher.

A autora também conta como nos Estados Unidos as mulheres filósofas têm buscado combater as desigualdades de gênero nas universidades. Hoje, no Brasil, a presença das mulheres na Filosofia decresce ao longo da carreira: 38% graduadas, 28% nos cursos de pós e 20% no corpo docente. Ela afirma que o cenário nos Estados Unidos é similar, mas ainda pior no que diz respeito ao corpo docente, pois são 17%. Para ela, a razão pela qual é mais difícil para mulheres avançarem na vida acadêmica é que elas não são vistas como criadoras intelectuais que desenvolvem novas ideias.

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