“O neoliberalismo não se legitima mais. As pessoas querem a proteção do Estado” - entrevista com Nancy Fraser

 
Por Nádia Junqueira Ribeiro - jornalista, doutoranda em Filosofia (Unicamp) e pesquisadora visitante na New School
Dra. Nathalie Bressiani (Filosofia/UFABC), tradutora de “Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica

Entrevista originalmente publicada no Le Monde Diplomatique em 26 de março de 2020.

 
Aqui segue a versão completa da entrevista.
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Imagem: Pedro Moreira

A tradução do livro da filósofa feminista Nancy Fraser com Rahel Jaeggi, “Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica”, acaba de ser publicado pela Boitempo no Brasil. Nesta entrevista concedida na New School, universidade onde dá aulas nos departamentos de Filosofia e Política, Fraser comenta sobre o livro, o retorno do capitalismo ao centro do debate e sobre a crise da legitimidade do neoliberalismo em todo o mundo. A professora também opina sobre a atual crise da democracia e a insurgência política de mulheres em todo o mundo. 

Apoiadora de Bernie Sanders, democrata que se auto intitula socialista, Fraser acredita que os Estados Unidos são hoje um dos poucos lugares no mundo onde hoje a esquerda parece oferecer alternativas reais às crises atuais. É um momento, segundo a teórica, que as pessoas querem pensar fora da caixa e fazer propostas radicais. Para a autora, as respostas violentas e brutais que vêm de figuras como Bolsonaro e Trump não são estáveis o suficiente para atender os anseios daqueles que demandam mudanças.

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Entrevista com Eduardo David de Oliveira sobre Filosofia Africana: “Não estamos disputando um puxadinho dentro do edifício Filosofia, mas a Filosofia em si”

Por Nádia Junqueira Ribeiro*

A produção de conhecimento é milenar, os filósofos estão entre os canônicos e há mais de 100 anos há produção de filosofia profissional contínua, mas ainda é extremamente tímida nos currículos de graduação e pós-graduação. Assim é hoje a situação da Filosofia Africana no Brasil que, contudo, reivindica seu lugar e aos poucos ocupa maior espaço nos departamentos de nossa área. O minicurso durante o último encontro da Anpof (em Vitória, em 2018) sobre o tema foi um dos mais procurados, por exemplo. Aprimeira tese de doutorado sobre Filosofia Africana defendida dentro de um Programa de Pós-Graduação em Filosofia recebeu menção honrosa no prêmio Anpof em 2018 e no prêmio Capes de Teses de Filosofia em 2019. Oautor foi Luís Thiago Freire Dantas, da Universidade Federal do Paraná.

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“Filosofar a partir da perspectiva de mulheres pensadoras desafia senso comum moral”, entrevista com Christine Lopes

Katarina Peixoto*

No mês de junho aconteceu no Rio de Janeiro a I Conferência Internacional Mulheres na Filosofia Moderna, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Foi a primeira Conferência desse porte, dedicada a essa agenda de pesquisa no Brasil, a qual envolve um entrelaçamento incontornável entre método filosófico e história da filosofia com o olhar para a presença e para a voz da mulher. Dra. Christine Lopes é uma filósofa vinculada a uma das escolas que introduziu no Brasil, durante a redemocratização, uma história conceitual da filosofia que utiliza ferramentas analíticas para compreender os textos do repertório clássico do cânone, enquanto mantém uma leitura bem de perto e cuidadosa desses textos.

Lopes, há alguns anos, vive, leciona, e pesquisa filosofia na Inglaterra e optou por se tornar uma filósofa independente. Em 2011 criou o Later German Philosophy project. Lopes participou neste ano de uma conferência internacional em filosofia kantiana na Rússia que celebrou ainda os 295 anos de nascimento do filósofo alemão Immanuel Kant. Ela acaba de integrar um projeto acadêmico internacional em filosofia com base em Lisboa, e ainda em dezembro fará palestras em Berlim e Bayreuth, na Alemanha, sobre sua atual pesquisa sobre ética, moralidade, e afetividade. A filósofa atua ainda como psicoterapeuta treinada e registrada no sistema de saúde público nacional inglês (NHS) coordenando o cuidado e tratamento de pessoas com doenças mentais severas e crônicas.

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Mulheres na Filosofia: "Nós queremos nos juntar a eles, entrar pela porta da frente" Entrevista com Prof. Yara Frateschi (Unicamp)

por Nádia Junqueira Ribeiro

Um breve olhar sobre os currículos de Filosofia no Brasil – e no mundo – e podemos ver que as mulheres filósofas são poucas ou ausentes nas bibliografias, o que não significa, contudo, que elas não existam ou existiram. É este o pano de fundo da I Conferência Internacional das Mulheres na Filosofia Moderna, que traz não apenas pesquisas de filósofas como Émilie du Châtelet e Anne Conway, mas discute a presença destas pensadoras no cânone filosófico. Um mesmo olhar para a presença das mulheres nas pós-graduações e corpo docente de departamentos de Filosofia no Brasil nos conduz a uma conclusão parecida: são minoria. Esta é a razão que levou a professora livre-docente do departamento de Filosofia da Unicamp, Yara Frateschi, a uma das mesas na conferência que aconteceu na última semana na UERJ, no Rio de Janeiro. Ainda que o trabalho acadêmico de Frateschi esteja voltado para filósofas políticas contemporâneas (como Seyla Benhabib e Hannah Arendt), a professora tem se dedicado a compreender os números que revelam esta baixa presença e se engajado em ações que possam transformá-los.

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Entrevista: “É preciso afirmar a potência de um feminismo agonístico”, Carla Rodrigues (UFRJ)

Dra. Franciele Petry, professora UFSC e diretora de comunicação ANPOF

Em entrevista concedida à ANPOF, Carla Rodrigues, Professora do Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora no Programa de Pós-Graduação de Filosofia (IFCS/UFRJ) e bolsista da Faperj, comenta o contexto teórico a partir do qual a crítica de Butler em Problemas de gênero foi desenvolvida, assim como suas implicações no campo da luta política. A professora explica como Butler adotou uma via de conciliação para lidar com “o problema de fazer política feminista supondo uma estabilidade da categoria "mulheres" e nem assim se desfazer do feminismo como forma de luta”. Também esclarece a posição de Butler em relação ao conceito de gênero e comenta as distorções de que se alimentam os críticos ao falarem de uma suposta “ideologia de gênero”.

Refletindo sobre o lugar das mulheres na Filosofia, a professora indica a tarefa que cabe a elas de ir além da denúncia do machismo, alcançando a crítica à misoginia estrutural que autoriza “a violência contra tudo aquilo que carrega a marca do feminino”. Nesse sentido, partindo da contribuição teórica de Butler, propõe que as mulheres pensem em “‘alianças contingentes’ com outros grupos marcados por vulnerabilidade e subalternidade”. A professora destaca, ainda, que considerando as diferenças epistemológicas existentes no campo acadêmico, quando se trata das teorias feministas, há um encontro entre elas na prática política cotidiana, o que não significa que haja uma unidade.

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Entrevista com Yara Frateschi - Feminismo Negro

“As nossas bibliografias de curso ainda são muito conservadoras, é tempo de democratizá-las”
Entrevista com Yara Frateschi sobre disciplina lecionada sobre “Feminismo Negro” no departamento de Filosofia da Unicamp

Por Nádia Junqueira Ribeiro*

 

Professora da Unicamp há 15 anos, a livre-docente Yara Frateschi lecionou, pela primeira vez no departamento de Filosofia da universidade, uma disciplina com bibliografias compostas exclusivamente por autoras negras, filósofas e sociólogas. “Feminismo Negro” foi lecionada no primeiro semestre deste ano para pós-graduação e, no segundo, para graduação. Segundo Yara, foi um genuíno exercício de alargamento da mentalidade: “a melhor experiência que eu tive até hoje em sala de aula”, confessa a professora. No ano passado, a professora Monique Houlshof abriu caminho ao ministrar uma disciplina na graduação do mesmo departamento sobre perspectivas feministas sobre a democracia e incorporado em sua bibliografia textos de Angela Davis e Lélia Gonzales. Frateschi compartilha nesta entrevista a experiência de ter levado exclusivamente autoras negras para uma disciplina na Filosofia.

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Entrevista com José Meirinhos - “Em tempos difíceis, é papel da Filosofia também ajudar a evitar o desastre”

Por Nádia Junqueira Ribeiro, com contribuição do prof. Dr. Alfredo Storck (UFRGS)*

O presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia esteve na última semana no Brasil para participar do I Congresso da Sociedade Brasileira pelo Estudo da Filosofia Medieval, em Porto Alegre. Na ocasião, José Meirinhos, que também é diretor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto e presidente da Sociedad [ibérica] de Filosofía Medieval, defendeu a obrigação de professores e estudantes de Filosofia resistirem ao ataque que a área vem sofrendo. Para o professor, foram a ciência e a generalização da educação que contribuíram decisivamente para vivermos num mundo melhor e responsabilidade dos professores e estudantes de filosofia continuar a trilhar essa via, resistir e contrariar todas as ameaças.

Segundo o filósofo, não há uma receita mágica para o pensamento ser eficaz. Ele defende, contudo, a argumentação clara, a intervenção pública, a defesa das instituições e de valores partilhados como as vias com que filósofos de todos os tempos contribuíram para o seu próprio tempo. “Cabe-nos fazer o mesmo”, disse o professor. Para ele, quem ataca a Filosofia e as Humanidades julga, equivocadamente, que este campo pode ser separados dos demais das ciências. “Quem começa atacando uma parte do saber, acabará tendo medo e tentando fazer o mesmo com todos os outros campos.  Os que agora atacam a Filosofia estão bem a tempo de compreender o erro que estão cometendo”, comenta.

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"As mulheres sempre existiram na Filosofia” Entrevista - Ruth Hagengruber

Ruth Hagengruber, diretora do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas de Paderborn, defende o papel determinante de mulheres na História da Filosofia


Nádia Junqueira Ribeiro*

As mulheres influenciaram o desenvolvimento do pensamento filosófico e científico de diversas formas ao longo da história. É esta a convicção da filósofa alemã Ruth Hagengruber. Mostrar esta influência é o propósito do Centro de História de Mulheres Filósofas e Cientistas, do qual é diretora e fundadora, em Paderborn, na Alemanha. Hagengruber esteve no Brasil na última semana durante a I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia Moderna que aconteceu no Rio de Janeiro. A filósofa veio ao evento a convite de Katarina Peixoto, pesquisadora da UERJ, que esteve presencialmente com Hagengruber em Paderborn no ano passado. Naquela ocasião, Ruth disse a ela: vocês devem buscar conhecer as mulheres filósofas da sua história. Não é fato que elas não existiram, vocês apenas não as conhecem.

Hagengruber desenvolve, desde os anos 1990, este trabalho de mostrar como os escritos filosóficos de mulheres, desde a Antiguidade, contribuíram, essencialmente para filosofia. Por esta razão, o centro de Paderborn, além de oferecer aulas, conferências e cursos de verão, reúne entre dois e três mil manuscritos de filósofas digitalizados, disponíveis para estudos e pesquisas. Nesta entrevista ela afirma esta existência das filósofas ao longo da história, se contrapondo ao discurso de que haja um apagamento destas pensadoras. Ela indica como vários filósofos, como Leibniz, Descartes e Locke, sempre se referiram a filósofas e nunca se mostraram desconfortáveis em terem aprendido com mulheres.

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A Filosofia e sua história têm um importante papel a desenvolver na educação

por Katarina Peixoto e Nádia Junqueira Ribeiro

Mundialmente conhecida pelo resgate do trabalho da filósofa Elisabeth de Bohemia, Lisa Shapiro é uma das pesquisadoras que abriu o caminho para pesquisas sobre filósofas invisibilizadas na fixação patriarcal do cânone. Tradutora das Correspondências da Princesa Elisabeth de Bohemia e René Descartes (Chicago, 2007), Shapiro é professora de Filosofia e diretora associada na Universidade Simon Fraser, dos Estados Unidos. Ela, que estará pela primeira vez no Brasil em junho, é uma das referências mundiais na discussão sobre novas narrativas na história da filosofia, métodos de investigação e no estudo do papel das emoções e paixões na filosofia do século XVII.

Shapiro, uma das principais palestrantes da I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia (que aconteceu na Uerj entre os dias 17 e 20 de junho – https://mulheresfilosofiamoderna.wordpress.com/), fala nesta entrevista sobre as dificuldades que enfrentou quando começou este trabalho, há mais de vinte anos. Ela também comenta como hoje em dia há um grande corpo acadêmico constituído e envolvido neste trabalho de reescrever o cânone, incluindo as filósofas. A professora compartilha, nesta entrevista, a experiência que vive hoje nos projetos dos quais faz parte, no Canadá e nos Estados Unidos, e a importância de tradução dos trabalhos destas filósofas para que sejam inseridas em cursos e currículos da filosofia. Atenta às discussões de nossos tempos, Shapiro defende como o ensino sobre as mulheres na história da filosofia pode ajudar a informar discussões contemporâneas. Para ela, a filosofia tem um importante papel no desenvolvimento da educação e do pensamento autônomo.

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Janyne Sattler: a relação entre a filosofia feminista e a militância

Nádia Junqueira Ribeiro*

Vice-coordenadora do GT de Filosofia e Gênero, a professora Dra. Janyne Sattler (UFSC) concedeu entrevista à Anpof neste mês de março e discutiu a relação entre militância e teoria feminista. Sattler apresenta uma perspectiva crítica de como a relação entre militância e filosofia apresenta-se como pejorativa. Segundo a professora, doutora em Filosofia pela Université du Quebéc a Montreal, o que é entendido como militante é compreendido como não filosófico. O que é propriamente “filosófico” é supostamente neutro em termos de postura política, diz Sattler. Para ela, ao se fazer uma filosofia feminista, as filósofas ferem os princípios caros a uma concepção da atividade filosófica.

Nesta conversa, a professora também comenta como a Filosofia, não só no Brasil, está bastante atrasada em relação a outras áreas no que tange à teoria feminista. Ela exemplifica como muito recentemente começamos a ler mulheres negras, como é o caso de Angela Davis que veio a ser traduzida somente em 2017. Além disso, ela explicita como apenas há pouco pesquisadoras como Sueli Carneiro e Lélia Gonzales foram reconhecidas como filósofas.

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