Entrevista: “É preciso afirmar a potência de um feminismo agonístico”, Carla Rodrigues (UFRJ)

Dra. Franciele Petry, professora UFSC e diretora de comunicação ANPOF

Em entrevista concedida à ANPOF, Carla Rodrigues, Professora do Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora no Programa de Pós-Graduação de Filosofia (IFCS/UFRJ) e bolsista da Faperj, comenta o contexto teórico a partir do qual a crítica de Butler em Problemas de gênero foi desenvolvida, assim como suas implicações no campo da luta política. A professora explica como Butler adotou uma via de conciliação para lidar com “o problema de fazer política feminista supondo uma estabilidade da categoria "mulheres" e nem assim se desfazer do feminismo como forma de luta”. Também esclarece a posição de Butler em relação ao conceito de gênero e comenta as distorções de que se alimentam os críticos ao falarem de uma suposta “ideologia de gênero”.

Refletindo sobre o lugar das mulheres na Filosofia, a professora indica a tarefa que cabe a elas de ir além da denúncia do machismo, alcançando a crítica à misoginia estrutural que autoriza “a violência contra tudo aquilo que carrega a marca do feminino”. Nesse sentido, partindo da contribuição teórica de Butler, propõe que as mulheres pensem em “‘alianças contingentes’ com outros grupos marcados por vulnerabilidade e subalternidade”. A professora destaca, ainda, que considerando as diferenças epistemológicas existentes no campo acadêmico, quando se trata das teorias feministas, há um encontro entre elas na prática política cotidiana, o que não significa que haja uma unidade.

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Entrevista com Silvana Ramos: Uma mulher que entra no curso de filosofia já transgrediu uma série de interditos sociais e culturais da sociedade patriarcal

Professora da USP e Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof comenta a baixa presença das mulheres na Filosofia e a necessidade de combate ao assédio

*Por Nádia Junqueira Ribeiro

Coordenadora do GT de Filosofia e Gênero da Anpof e professora de Filosofia da USP, Silvana de Souza Ramos fala nessa entrevista sobre assédio moral e sexual nos programas de pós-graduação em Filosofia e sobre a baixa presença das mulheres na área. A professora, que também coordena o Grupo de Estudos de Filosofia Política da USP, comenta sobre o documento publicado pela Anpof e elaborado pelo GT no fim de 2018 que contém diretrizes para combater assédio e sua importância, uma vez que as estudantes que sofreram ou que afirmam sofrer algum constrangimento ou violência, na maioria das vezes, não se sentem seguras para denunciar o fato às instituições a que pertencem, especialmente em casos de assédio sexual. Ainda que o documento preveja a avaliação qualitativa das ações de prevenção e de combate ao assédio como um elemento decisivo na avaliação dos PPGs pela Capes, ela reforça a necessidade de haver engajamento de todos e todas para que a recomendação se efetive. Para ela, isso passa pela necessidade de se estabelecer uma cultura de combate ao assédio em todas as universidades do país, o que exige a desnaturalização de relações opressivas generificadas e racializadas. Silvana, que também é Editora dos Cadernos Espinosanos, discute os números explicitados pela pesquisa da professora Carolina de Araújo que expressam a baixa presença das mulheres na Filosofia. Para a professora, a pesquisa é um marco para o debate a respeito da desigualdade de gênero em nossa área. Ela comenta que a simples descoberta do baixo percentual de mulheres na área já foi em si uma vitória. Ela salienta sua preocupação com o fato de haver um crescimento vertiginoso dos PPGs em Filosofia no país que, contudo, não enfrentou o desafio de desfazer desigualdades específicas, como as de gênero. Além de outras desigualdades, como as regionais, as de raça e as de classe. Para ela, é hora de enfrentar esses desafios. Para a professora, nossa área apresenta empecilhos para a implantação de mudanças nos parâmetros de avaliação de produtividade, os quais desconsideram as desigualdades de gênero. Silvana avalia o ambiente universitário hostil à presença pensante e autônoma de mulheres.

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Entrevista Linda Alcoff

Linda Alcoff: “Algumas mulheres podem ser vistas como grandes acadêmicas na história da filosofia, mas não são vistas como criadoras intelectuais que desenvolvem novas ideias”

Por Nádia Junqueira Ribeiro

Panamenha, Linda Alcoff é filósofa e professora em The City University of New York nos Estados Unidos. Dos 15 aos 32 trabalhou, como imigrante latina, em subempregos, até que o título de doutora chegou e se tornou professora de Filosofia. Ela veio ao Brasil para participar do XVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia que aconteceu em outubro de 2019 em Vitória/ES. Sua fala foi sobre epistemologia feminista decolonial. Nesta entrevista, a professora aproxima a situação vivida no Brasil com a eleição de Bolsonaro à vivida em seu país, com Trump. A filósofa indica que aqui, assim como lá, mulheres brancas apoiaram a candidatura porque buscam a proteção de seus interesses materiais. Ela indica, contudo, que a liberdade de mulheres brancas ricas só é possível a partir do trabalho de mulheres pobres. Alcoff insere em sua teoria esta distinção, argumentando contra um discurso universal e essencialista sobre mulher.

A autora também conta como nos Estados Unidos as mulheres filósofas têm buscado combater as desigualdades de gênero nas universidades. Hoje, no Brasil, a presença das mulheres na Filosofia decresce ao longo da carreira: 38% graduadas, 28% nos cursos de pós e 20% no corpo docente. Ela afirma que o cenário nos Estados Unidos é similar, mas ainda pior no que diz respeito ao corpo docente, pois são 17%. Para ela, a razão pela qual é mais difícil para mulheres avançarem na vida acadêmica é que elas não são vistas como criadoras intelectuais que desenvolvem novas ideias.

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“O recado é claro: manter as pessoas com medo”, diz professora Camila Jourdan, condenada à prisão pela participação nas Jornadas de Junho

Nádia Junqueira Ribeiro - Assessora de Comunicação da Anpof

Dos mais de 1,4 milhões de ativistas que foram às ruas nas chamadas Jornadas de Junho, em 2013, 23 caíram nas mãos da polícia e sofrem dura punição. Foram investigados e processados nos últimos quatro anos até serem condenados, no último dia 17 de julho, a até sete anos de prisão. A sentença foi assinada pelo Juiz Flávio Itabaiana, da 27ª vara criminal do Rio de Janeiro. Entre os crimes, o documento lista dano qualificado, resistência, lesões corporais, posse de artefatos explosivos, formação de quadrilha e corrupção de menores.

Os condenados recorrem em liberdade, pois a decisão foi em primeira instância. Entre eles, está a professora do Departamento de Filosofia da UERJ, Camila Jourdan, que deve lançar, ainda este ano, um livro sobre a história que culmina na condenação. Nesta entrevista, ela fala à Anpof sobre o processo, considerado por ela como uma absurdidade jurídica, na medida em que não tem base legítima e foi construído a partir de ilegalidades. Ela indica que o alvo desta condenação é a própria possibilidade de organização e mobilização e que tratar movimento político como formação de quadrilha e participação política como crime de corrupção de menores são condenações que abrem precedentes muito graves. Para ela, é importante questionar o que se pretende condenar e a resposta indicada é interditar a possibilidade de repetição de um levante popular como o de 2013.

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Entrevista com o Prof. Dr. Ivan Domingues

O livro de Ivan Domingues, Filosofia no Brasil – Legados e Perspectivas, publicado em 2017 pela editora da UNESP, já pode ser considerado um clássico do pensamento filosófico brasileiro, ao lado das obras seminais de Cruz Costa (Contribuição à história das ideias no Brasil) e Paulo Arantes (Um departamento francês de ultramar). Entretanto, diferentemente dos professores uspianos, Ivan Domingues não se ocupa diretamente da história da filosofia brasileira (Cruz Costa, especialmente século XIX) ou da filosofia uspiana (Paulo Arantes - anos 1960), mas de uma reflexão metafilosófica da filosofia brasileira.

Para tanto, Ivan Domingues utiliza livremente o método weberiano, construindo 05 (cinco) figuras típicas ideais: o intelectual orgânico da Igreja (período colonial); o diletante estrangeirado (Império e República velha); o scholar uspiano, formado pela missão francesa (1930-1960); o intelectual público contemporâneo e o intelectual cosmopolita globalizado (possibilidade futura). Toda a reflexão concentra-se na dinâmica dessas figuras ideais, sem prescindir, obviamente, da história da filosofia, da história cultural, da história econômica e da história social do Brasil.

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Janyne Sattler: a relação entre a filosofia feminista e a militância

Nádia Junqueira Ribeiro*

Vice-coordenadora do GT de Filosofia e Gênero, a professora Dra. Janyne Sattler (UFSC) concedeu entrevista à Anpof neste mês de março e discutiu a relação entre militância e teoria feminista. Sattler apresenta uma perspectiva crítica de como a relação entre militância e filosofia apresenta-se como pejorativa. Segundo a professora, doutora em Filosofia pela Université du Quebéc a Montreal, o que é entendido como militante é compreendido como não filosófico. O que é propriamente “filosófico” é supostamente neutro em termos de postura política, diz Sattler. Para ela, ao se fazer uma filosofia feminista, as filósofas ferem os princípios caros a uma concepção da atividade filosófica.

Nesta conversa, a professora também comenta como a Filosofia, não só no Brasil, está bastante atrasada em relação a outras áreas no que tange à teoria feminista. Ela exemplifica como muito recentemente começamos a ler mulheres negras, como é o caso de Angela Davis que veio a ser traduzida somente em 2017. Além disso, ela explicita como apenas há pouco pesquisadoras como Sueli Carneiro e Lélia Gonzales foram reconhecidas como filósofas.

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Crisóstomo e Ricardo Andrade conversam com Antônio Paim sobre Filosofia no Brasil (1)

Crisóstomo - Você tem um vasto trabalho de história do pensamento filosófico no Brasil, não apenas como historiador das ideias mas também como filósofo. Puxando a brasa para minha sardinha, pois esse é o problema que mais me interessa quando me ocupo de pensamento filosófico brasileiro, entendo que você entra naquela história, trata de encontrar aí verdadeiros desenvolvimentos filosóficos, e sai dela com uma proposta filosófica e uma tarefa para filósofos brasileiros: o Culturalismo. Você e o conjunto de pesquisadores do Instituto Brasileiro de Filosofia. É isso? Existe mesmo essa posição? Começando, então, pelo fim, o que é esse Culturalismo, que creio você compartilha com mais representantes do IBF? Quais são as suas teses? Trata-se de um humanismo da pessoa, de um neokantismo (incluindo contribuições hegelianas), de um anti-positivismo (embora amigável à ciência)? E, em termos de filosofia política, trata-se de um liberalismo moderado?

Antônio Paim – Eu sou kantiano. Quer dizer, na verdade o kantismo é uma forma de discutir, é um esquema que a sociedade ocidental encontrou para discutir a cultura, não é? A cultura, do ponto de vista marxista, estaria ligada a luta de classes, determinada pela condição proprietária, o que, como kantiano, não aceito. Mas houve em torno disso, no próprio marxismo, uma disputa de doutrina (que descrevo no meu livro Marxismo e Descendência), sobre esse determinismo, até na Rússia soviética. A discussão começou porque, primeiro, no próprio desenvolvimento da ciência, os russos esbarraram numa porção de problemas que saiam do esquema de “lutas de classe”. O ponto de partida foi um livro do Stalin em que ele examinava a questão da linguística: O marxismo e a questão da linguística. Ele diz nesse livro que a língua e a técnica não são parte da superestrutura classista. Então não há língua de classe, nem técnica de classe. Eu estudava na Universidade de Lomonosov e lá esse livro do Stalin “legalizou” de certa forma os estudos linguísticos.

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Uma escola não pode deixar de ser política, diz professor português José Meirinhos durante encontro da Anpof

Nádia Junqueira - Assessora de Comunicação da Anpof

Vindo da Universidade do Porto (Faculdade de Letras) e Presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, o professor José Meirinhos esteve presente no XVIII Encontro Anpof em Vitória e apresentou uma conferência no segundo dia, 23 de outubro, cujo tema era: O fim da sabedoria e a ordenação das ciências, entre a Idade Moderna e a Idade Média, no segundo dia de programação. Aproveitamos sua presença e fizemos uma entrevista na qual ele fala da importância em manter o ensino de Filosofia no Ensino Médio, a importância de os professores se articularem para proporcionar um ensino que realce a natureza inclusiva, abrangente e crítica da filosofia. Professor Meirinhos também se solidariza com a realidade da Filosofia no Brasil e afirma que uma tarefa permanente da própria comunidade filosófica é impedir que a filosofia seja retirada dos currículos escolares, dando a essa disciplina a importância que de facto tem para a formação dos alunos enquanto cidadãos livres e críticos.

A respeito do ensino de Filosofia no Ensino Médio, como o senhor acredita que ele afeta a vida acadêmica dos professores e como eles podem fazer essa transição, entre a academia e o ensino médio? Por que essa é uma barreira que a gente encontra no Brasil? Há uma dificuldade de levar os textos filosóficos para a sala de aula?

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CRISÓSTOMO ENTREVISTA MARGUTTI - (Fazer Filosofia no Brasil, Conhecer Pensamento Brasileiro)

1) Você tem sua titulação filosófica em Lógica e Wittgenstein, e, como professor e pesquisador, um percurso profissional longo e produtivo. O que lhe levou a fazer Filosofia, a escolher dentro dela essa área em particular, e a começar com esse autor? Alguma experiência particular? Você passou por outros interesses?

Fui levado à filosofia pela questão religiosa. Minha formação é católica, mas nunca fui um praticante convicto. Aos quinze anos, comecei a duvidar dos dogmas religiosos e me declarei ateu. Como estudava no Colégio Marista de Poços de Caldas e discutia a respeito do assunto com meus colegas, fui expulso pelo diretor, sob a acusação de fazer proselitismo. Isso aconteceu no início do segundo semestre de 1962 e eu estava correndo o risco de perder o ano por falta de outras opções de matrícula na cidade. Com muito esforço e muita diplomacia, meus pais conseguiram que o colégio me permitisse ficar até o final do ano, quando deveria me transferir. Meu problema existencial, porém, não terminou ali. As pessoas que ficavam sabendo do meu abandono da religião em geral eram católicas e ficavam escandalizadas com o que achavam ser uma temeridade minha. E me garantiam que eu iria para o inferno. Isso me estimulou a dedicar-me ao estudo da filosofia, tanto para ter certeza de minha posição como para não abrir o flanco ao castigo eterno. Antes desses eventos, meus planos eram de fazer engenharia, em virtude de minha facilidade com a matemática. Apesar da oposição de minha família, eles foram abandonados em nome da filosofia e, ao iniciar-me nela, foi natural a minha opção por lógica e filosofia da linguagem. O Wittgenstein entrou na história porque o Tractatus, com sua mescla de lógica e misticismo, constituía um verdadeiro desafio exegético para mim. Mas foi graças ao estudo do seu pensamento que pude reavaliar minha concepção de religião, que considerava uma mera expressão de obscurantismo, percebendo bem melhor o sentido da mesma na vida humana, embora continue ateu.

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ENTREVISTA GIANNOTTI: MARX, WITTGENSTEIN E O CAPITALISMO HOJE (PARTE II)

Parte II da versão condensada de entrevista de José Arthur Giannotti a Vinicius de Figueiredo, publicada originalmente em Analytica, v.15, n.2, 2011, sob o título “Caminhos e Percalços de um Trabalho”. Giannotti é talvez o mais destacado “pai fundador” da filosofia acadêmica brasileira que tem a USP como matriz, nosso filósofo n.1, um bastião de sua ortodoxia “goldschmidtiana”, depois um defensor da tese de filosofia como ensaio, e também um estudioso que, a partir de Marx, empenhou-se em desenvolver um pensamento filosófico próprio (Crisóstomo, ed.)

Pergunta: Em que medida esta ênfase no logos se liga ao estudo da lógica em sentido clássico?

Resposta: Se um jogo de linguagem é um juízo, ele vai muito além da predicação. Por isso, estou metido nesse estudo até hoje. Não é à toa que, de um lado, leio e releio Heidegger para verificar como um pensamento funciona antes da predicação, de outro, procuro Wittgenstein para verificar como um jogo de linguagem, em particular aqueles não verbais, depende de um ajuste da bipolaridade numa base que somente pode ser dita por proposições monopolares. Desde Platão e Aristóteles dizer algo de algo é formalizado segundo a estrutura predicativa que, como tal, apresentava a estrutura do real. Depois do império do cogito houve a necessidade de ligar a representação ao representado, quando o conhecimento deveria operar antes de se enquadrar na estrutura formada por proposições ligadas em silogismos. Os sistemas metafísicos passam então a ser precedidos por estudos sobre o método ou da natureza do entendimento. E aos poucos a predicação passa a ser pensada como determinação, conformação restringente do estado de coisa. O idealismo alemão para ir além da predicação necessita tomá-la como ponto de partida. Por isso não escapa da reflexão, seja do cogito, seja do espírito. Daí ter sempre no horizonte a pergunta pelo que a predicação põe. Essa questão desaparece para a fenomenologia e para Wittgenstein. Por isso me parece um despropósito buscar os fundamentos de uma crítica da modernidade num diálogo entre Kant e Hegel.

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