8 de março: um dia de luta e de celebração

Izilda Johanson

Professora de Filosofia da Unifesp e coordenadora do GT de Filosofia e Gênero

Juliana Aggio

Professora de Filosofia da UFBA e coordenadora do GT de Filosofia e Gênero

09/03/2021 • Coluna ANPOF

Que o 8 março seja celebrado mais uma vez como um dia marcante na luta feminista, mas não nos esqueçamos que nossa luta é constante e cotidiana. Seria leviano dizer que esse dia deva ser lembrado apenas como dado histórico de uma luta já superada, como se não existisse mais violência de gênero, racial, sexual, interseccional. Seria, em verdade, um ideal, pois que a realidade ainda é bastante distópica e violenta. Assim, se escrevemos mais uma vez sobre a importância desse dia é porque sabemos o quanto ainda é necessário tanto relembrá-lo quanto celebrá-lo, instituindo, reiteradamente, um ritual de consciência e de renovação de nossas lutas.

Uma das versões diz que o Dia Internacional da Mulher teria surgido em homenagem a 129 operárias que morreram carbonizadas em uma fábrica têxtil incendiada no dia 8 de março de 1957, em Nova York. O incêndio teria sido criminoso e ocorrido em retaliação a uma série de greves e levantes das trabalhadoras. Embora seja controversa a sua origem, a data marca, de todo modo, a luta contra o sistema patriarcal e tem como principal mote o direito das mulheres, como trabalhadoras em primeiro lugar, seguido dos direitos civis à cidadania, à educação e a um lugar mais igualitário em termos de vida social. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a data como oficial.

O acesso à própria produção de conhecimento, arte, ciência e cultura encontra-se também no campo das reivindicações históricas das mulheres. O que inclui, evidentemente, a filosofia. Diferente do que se poderia supor indevidamente, as mulheres não passaram a filosofar apenas recentemente - mais precisamente, no século XX -, como se, até então, estivessem totalmente ausentes da prática filosófica. Cada vez mais pesquisas e estudos têm nos revelado a existência de produção significativa de mulheres filósofas em todos os tempos e lugares. No entanto, para além da questão do esforço empreendido no sentido de invisibilizar a filosofia feita por mulheres ao longo da história, revela-se também o fato de que a produção filosófica de mulheres, de modo geral, têm-se mostrado, dos tempos mais remotos até o presente, quantitativamente mais reduzidas em comparação às de filósofos do gênero masculino. Há tempos e até hoje nós, do gênero feminino, estamos presentes em menor número na filosofia, o que nada tem a ver com uma hipotética natureza em termos de diferença de sexo e gênero, tampouco com preferências ou idiossincrasias de cunho pessoal, mas, antes e acima de tudo, com o sexismo filosófico e com desfavorecimentos e obstáculos especificamente ligados à existência do gênero feminino.

Com relação à comunidade acadêmica filosófica no Brasil, a realidade não tem sido diferente. Assim, o que nos move aqui e agora em relação ao 8 de março é ainda esse propósito de reiterar a necessidade de tomada de consciência da nossa situação particularmente desfavorável no âmbito acadêmico filosófico, assim como de celebrar as conquistas que até aqui pudemos identificar e que não foram poucas.

A história desses avanços e dessas conquistas não começa, certamente, no ano de 2016, no entanto, foi este o ano em que vimos florescer o que hoje poderíamos chamar de primavera das filósofas. Estamos nos referindo a um movimento feminista plural e diversificado que foi ganhando corpo e visibilidade no campo da filosofia no Brasil, em eventos, manifestações, publicações, projetos e diversas outras iniciativas encampadas por mulheres filósofas sobre a filosofia das filósofas.

A primavera iniciou-se com um estudo divisor de águas que marcou o debate público naquele ano: o ensaio “Mulheres na pós-graduação em Filosofia no Brasil”, de Carolina Araújo (UFRJ), que mostrou que as mulheres têm 2,5 menos chances de chegar ao topo da carreira. Neste mesmo ano, foi criado o grupo de trabalho Filosofia e Gênero da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), e o projeto de extensão Quantas Filósofas? (UFRJ), cujo objetivo é produzir dados sobre Filosofia e Mulheres no Brasil e redigir e divulgar verbetes sobre filósofas.

 Em um crescente geométrico, tivemos uma verdadeira explosão de eventos em 2020: foram cerca de 108 eventos virtuais (lives, podcasts, encontros), 28 cursos, 42 publicações e 9 entrevistas sobre a temática mulheres e filosofia. Cabe, então, destacar algumas iniciativas: a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, que abriga 67 projetos sobre mulheres e filosofia, diversos eventos e iniciativas, e que pode ser compreendida como uma autopoietica de ações coletivas em território e comunidade de segunda ordem para lutar contra o preconceito acadêmico; a Rede de Mulheres Filósofas da América Latina (REDDEM) cujo objetivo é o de fortalecer o intercâmbio e a solidariedade entre as mulheres filósofas dos países da América Latina; o GT Mulheres na História da Filosofia da Anpof, que procura resgatar obras de mulheres silenciadas e negligenciadas na História da Filosofia; o Projeto Solidariedade em cursos do Laboratório Filosofias do tempo do agora em parceria com Dissonâncias Coletivas, que oferece cursos cuja metade da verba angariada fora destinada para o projeto Maré de sabores, onde mulheres da favela da Maré cozinham todos os dias 300 refeições para população local desassistida; o projeto Uma filósofa por mês cujo objetivo é fazer conhecer a biografia e bibliografia de uma filósofa por mês, da antiguidade à contemporaneidade; o projeto Mulheres de hoje e de ontem, que é um novo podcast na rádio da UFRJ elaborado em conjunto pelos grupo de pesquisa em Reflexão Moral Interdisciplinar e Narratividade (GERMINA-UFSC), e o grupo Decolonial Carolina de Jesus, do Laboratório Antígona (IFCS/UFRJ), que tem como objetivo fazer conhecer as filósofas de modo acessível e atraente; o projeto Mulheres que leem Mulheres; o Filósofas na Rede; o Blog Mulheres na Filosofia, da Unicamp; o Prêmio Filósofas de melhor dissertação e tese em filosofia produzido por uma mulher. A lista aqui não é exaustiva, mas apenas pretendeu dar destaque a uma certa representatividade de projetos e ações inclusivas focando questões de gênero, raça, sexualidade e classe que têm despertado a consciência para a necessidade de diminuir as desigualdades.

Ademais, para 2021, um grupo de professoras pesquisadoras pretende fazer a tradução completa da obra Women Philosophers (Mulheres Filósofas), de Mary Waithe. A obra em questão é construída em quatro volumes, cada volume referente a uma época da História da Filosofia e sua tradução terá, certamente, um impacto epistêmico e, sobretudo, político, pensando principalmente no público brasileiro, mas não somente, e na inserção de filósofas nos currículos escolares e acadêmicos.

Desde 2016, a preocupação com o equilíbrio entre mulheres e homens nos eventos, nas publicações, nos currículos das disciplinas, nos lugares de poder decisório, se tornou uma constante. A naturalização do lugar de fala e poder dos filósofos vêm sofrendo o contra-ataque das filósofas. Há momentos em que é preciso ocorrer uma transformação radical, e, talvez, esse seja o momento oportuno para abrir as portas da filosofia. Em contraposição à supremacia branca, masculina, heterossexual, e socialmente privilegiada, é preciso criar uma cultura democrática na sociedade e no interior da academia, esse microcosmo da sociedade, de modo que se crie espaço para que muitas expressem suas ideias, necessidades, desejos e culturas. Bem como mostrem suas filosofias.

Um marco importante de nossas lutas foi a publicação do dossiê Filósofas. Talvez esse dossiê tenha sido uma reação à famosa coleção “Os Pensadores”, que não contém nenhuma pensadora em seus 52 volumes de 25 séculos de filosofia. Mas talvez seja mais do que isso. Talvez seja a expressão de que nós, filósofas brasileiras, estamos ganhando cada vez mais consciência de que o que já se produziu em filosofia pelas mulheres é extremamente profundo e transformador e que o que nós queremos é uma completa revisão feminista da história da filosofia. Uma história que não apenas inclua mulheres filósofas, mas que se abra para novos objetos, questões e temas e novas formas de argumentar, imaginar e produzir conhecimento.

Percorrendo caminhos paralelos, os efeitos de nosso movimento já são notórios e notáveis: mais eventos feitos por mulheres e sobre filósofas, mais publicações de filósofas e sobre obras de filósofas, mais filósofas nas referências bibliográficas das disciplinas, maior inserção na área acadêmica no que se refere à pesquisa, ensino e extensão dos temas de gênero, mais grupos e redes de articulação entre filósofas, mais filósofas ocupando cargos de poder. Recentemente, uma mulher assume pela primeira vez a coordenação de área da filosofia da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), Yara Frateschi, e Susana de Castro torna-se a terceira presidente da Associação Nacional de Pós-graduação de Filosofia (Anpof) desde 1983.

 Assim, esperamos que as gerações posteriores possam encontrar um universo acadêmico mais inclusivo, aberto e democrático. E que essas gerações de mulheres possam, desde o início, acreditar em si mesmas enquanto capazes de fazer filosofia. Esperamos também – e por que não? – que os homens aprendam algo com esse movimento feminista: a desaprender seu privilégio, a se colocarem em xeque, e assim possamos todas, todos e todes promover deslocamentos, desvios e torções epistêmicas e éticas.