A Constelação Familiar: um engodo vindo do além mar?

Érico Andrade

Professor do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco

16/09/2021 • Coluna ANPOF

A ciência se fez como braço decisivo do estado laico porque ela foi capaz de produzir um conhecimento cuja validade não precisa apelar a nenhuma entidade transcendental. Assim, mesmo que cientistas sejam religiosos, a prática que produzem nos laboratórios não pode ser religiosa e tem que guardar em algum nível um compromisso com a experiência. São as evidências controladas publicamente por toda comunidade científica – cada vez mais internacionalizada – que ditam o compromisso com a verdade. Confiamos na ciência porque ela é laica.

Desse modo, qualquer atividade que exija um compromisso ontológico com entes transcendentais, como espírito, Deus ou algo do gênero, não faz parte do hall das práticas científicas. Isso não significa que as nossas crenças de natureza religiosa ou estritamente ideológicas não sejam válidas, mas apenas que elas não podem governar uma política pública que deve se dirigir a todas as pessoas nos seus mais variados conjuntos de crenças.

Cabe-nos perguntar, então, por que as universidades, responsáveis pela produção da ciência, deveriam acolher práticas como a Constelação Familiar que não possuem a devida comprovação científica e que não são reconhecidas pelo Conselho de Psicologia, nem de Medicina. A questão que se impõe aqui é por que ela tem passe livre para entrar nas universidades e instituições de direito diferentemente de tantas práticas ancestrais cuja raiz está aqui mesmo no Brasil?

Primeiramente, é importante ressaltar que entendemos que a universidade cumpre uma dupla função social. Por um lado, oferecer as melhores estratégias para lidarmos com problemas sociais e, por outro, produzir conhecimentos que podem subsidiar uma relação racional com a natureza. Ora, a Constelação Familiar longe de resolver problemas sociais, como o machismo, os reproduz quando incorpora certa compreensão do cristianismo na qual os papeis dos homens e mulheres são fixos. A mulher deve servir ao lar e o homem deve ser o provedor. Por outro lado, para além da sua base explicitamente religiosa, a Constelação Familiar se pauta numa miscelânea de conhecimentos seguindo uma lógica neoliberal do self-service onde se misturam coisas díspares conforme se deseja vender um produto (tem muita gente lucrando com a CF!), sem que haja uma articulação com consistência empírica ou teórica que poderia justificar tal prática. O que resta para corroborar a CF é o relato pessoal de cura. Mas os bolsonaristas se diziam curados com o “tratamento precoce”.

Para a assimilação de qualquer tratamento, ainda que ele esteja na fase experimental, é necessário medir os efeitos nocivos que ele pode acarretar. Os relatos de cura não são os únicos verbalizados pelas pessoas que se submeteram à CF. Há vários relatos de abuso no que concerne sobretudo à culpabilização da vítima. Assim, não estamos falando de uma prática inofensiva ou de um mero medicamento placebo. Quando opera com categorias como culpa, expiação e pagamento os efeitos iatrogênicos da Constelação Familiar são notáveis. Ela pode trazer danos incalculáveis do ponto de psíquico, dentre outras coisas, porque parte de uma base profundamente conservadora no que diz respeito à concepção de família (fundada na noção de consanguinidade e que retrata uma família heteronormativa burguesa) e força as mulheres a assumirem o papel do que supostamente é feminino.

  Diante de todas essas questões parece que a Constelação Familiar conta a seu favor com um grande lobby no Brasil: o colonialismo. Não raro a cultura europeia adentra no Brasil sem qualquer questionamento com a promessa de resolver conflito quando na verdade ela é uma de suas causas. No caso do Bertin Hellinger é ainda mais grave porque os terapeutas e as terapeutas da Constelação Familiar fazem vistas grossas ou sequer investigam, como mostrou na sua dissertação Raissa Cunha, a atuação de dezesseis anos do missionário católico na África do Sul no regime do Apartheid.

Assim, enquanto um saber europeu tem passe livre para adentrar nas instituições laicas e públicas no Brasil outras práticas ligadas à comunidade afordescedente penam para serem ouvidas pelo Estado brasileiro. Para além do machismo presente na Constelação Familiar, demonstrado pela reportagem de Bianca Gomes para O Globo e pelo relato de várias mulheres nas redes sociais, devemos estar atentos e atentas sobre as razões que fazem as ideias europeias imperar mesmo quando elas são um conglomerado de incongruências.

 

Referências

Cunha, Raissa. O emaranhamento de destinos no tratamento de conflitos : a constelação familiar no judiciário brasileiro. Dissertação de mestrado. UNB, 2020.

Gomes, Bianca. Mulheres denunciam que Justiça reabre feridas com método que reencena agressões para solucionar conflitos. 

https://oglobo.globo.com/brasil/direitos-humanos/mulheres-denunciam-que-justica-reabre-feridas-com-metodo-que-reencena-agressoes-para-solucionar-conflitos-1-25184779

 

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