"Não se trata apenas de ampliar o cânone, mas de pensar em outros modos de fazer a própria filosofia", entrevista com prof. Dr. Wanderson Flor do Nascimento (UnB)

Luís Thiago Freire Dantas

Professor da UERJ e integrante do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana

Adilbênia Freire Machado

Doutora em Educação (UFC) e integrante do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana

23/11/2021 • Entrevistas

O professor Dr. Wanderson Flor do Nascimento (UnB) é o responsável pelo site filosofia-africana, que, desde 2015, reúne centenas de materiais em língua portuguesa que subsidiam pesquisas sobre a filosofia africana e afro-brasileira, assim como servem de apoio para material didático. Nesta entrevista, a quarta da série teias ananseanas de filosofias africanas no/do Brasil, ele defende como estudar e pesquisar as filosofias africanas muda nossa relação com o próprio fazer filosófico, ao trilhar um caminho rumo a um genuíno interesse e curiosidade sobre os muitos modos de pensar. Ele atenta para o problema, no Brasil, de tomarmos setores, como franceses e estadunidenses, como o todo da prática filosófica, caindo no risco de empreendermos uma caricatura perigosa do fazer filosófico.

Nesta entrevista concedida à Adilbênia Machado e Luís Thiago Freire Dantas, Wanderson Flor explica sobre o pensamento enterreirado, um pensamento atravessado pela ancestralidade afro-indígena e que tem mais interesse em compreender processos que coisas, pois aposta que é nas relações que o mundo se dá. Ele também defende a necessidade de uma educação antirracista, sobretudo a partir da infância, para que o projeto da equidade possa prosperar. O professor da UnB ainda argumenta sobre o papel da bioética na compreensão do racismo com uma situação persistente que condiciona a relação que estabelecemos com a vida e com a saúde. Esta série é uma iniciativa do Eixo Filosofia Africana e Afro-Diaspórica da Associação de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) e do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana da Anpof, dos quais Adilbênia e Thiago são coordenadores e integrantes, respectivamente. 

Acompanhe a entrevista abaixo.

 

O que é o pensamento enterreirado e como ele contribui para uma Filosofia plural, diversa, inclusiva?!

Tenho chamado de pensamento enterreirado a esses modos de pensar produzidos no terreiro e, também, àqueles que, fora do terreiro, herdam esses modos ou estabelecem com eles continuidades e compromissos. Emergindo no e do terreiro, traz consigo toda a lógica de resistência aos modos coloniais, racistas, patriarcais que demandaram o surgimento dos terreiros de candomblé em nosso país. É um pensamento atravessado pela ancestralidade afro-indígena que o constituiu. É um jeito de posicionar o pensamento buscando fortalecer os vínculos comunitários que foram partidos, quebrados na empresa colonial.

É desconfiado de binarismos originários, naturalizados, e que, portanto, tem muita dificuldade em pensar o conhecimento em termos de uma relação binária entre um sujeito – descritor ou fundante – e um objeto ao qual apenas se acessa de maneira distanciada, objetiva, neutra. É um pensamento que mais do que tomar partido radical do ‘ou isso ou aquilo’, sempre se perguntará se, em prol da comunidade, não valerá a pena penar no ‘e isso também’. Tem mais interesse em compreender processos que coisas, pois aposta que é nas relações que o mundo se dá.

Em função da herança dessas comunidades de resistência – os terreiros – o pensamento enterreirado será sempre crítico, autocrítico e inventivo, pois sabe da característica sedutora do pensamento colonial. E, assim sendo, nunca é um pensamento fechado, definitivo, estático. Sabe que o mundo se movimenta e que precisará ser sempre pensado de outras maneiras, a partir das experiências vividas e de suas transformações.

Dadas essas características, se a filosofia for feita desde os marcos de um pensamento enterreirado, não há outra coisa que ela possa ser senão plural – já que as relações se recusam a ser pensadas em termos mono-orientados ou monorreferenciais – e estará sempre preocupada com tudo o que fortaleça a comunidade, não sendo, de princípio, proibitiva, exceto daquilo que reafirme os poderes destrutivos coloniais. E isso a encaminha para uma dimensão acolhedora, palavra a que prefiro em vez de ‘inclusiva’.

 

Qual a importância e o impacto de uma educação antirracista na infância para a formação de uma sociedade com equidade?

A educação colonial das crianças faz com que providenciemos um esquema de continuidade das desigualdades. Só é possível manter o racismo em funcionamento se promovermos a formação de pessoas racistas, pois, como notou Mandela, ninguém nasce julgando ninguém por traços raciais. E como o racismo é uma estrutura fundamental da desigualdade moderna, qualquer estratégia de enfrentamento à desigualdade – sobretudo as com matizes equitativos, que reorientem a ideia de justiça – precisa instaurar uma educação antirracista. Obviamente, as políticas de equidade não acontecem apenas através da educação antirracista. É preciso muito mais. Entretanto, sem uma educação antirracista, sobretudo a partir da infância, o projeto da equidade não tem chance alguma de prosperar.

 

Quais os desafios para pensarmos filosoficamente, em diálogo com a bioética, a saúde da população negra?

O primeiro e fundamental desafio é entender que o racismo impacta a saúde da população negra. Mesmo com o debate sobre os determinantes sociais da saúde, se tem evitado a assumir que o racismo seja um desses determinantes, pois, como nos ensinou Lélia Gonzalez, o racismo brasileiro funciona por denegação, negando sua própria existência. E essa é uma das maneiras mais potentes de manter em operação sua dinâmica de poder sem encontrar maiores dificuldades.

Na medida em que percebemos que há fatores que são biológicos, mas há outros que são sociais, que determinam os processos de adoecimento – e, entre eles, o racismo ocupa um lugar importantíssimo – podemos tomar decisões mais acertadas sobre os modos como se conduzem as políticas de saúde voltadas à população negra, exatamente no contexto das políticas de equidade.

E a bioética pode contribuir de modo importante auxiliando a pensar as difíceis decisões diante da escassez de recursos e a necessidade historicamente posicionada de uma atenção mais intensa no que diz respeito à saúde população negra, pois a bioética entende – ao menos aquela produzida na América Latina – que o racismo é uma situação persistente que condiciona a relação que estabelecemos com a vida e com a saúde.

 

Como a filosofia africana, em seu âmbito de pesquisa, contribui para repensarmos a filosofia produzida no Brasil?

De um modo geral, é preciso distinguir entre a filosofia produzida no Brasil e a filosofia brasileira. Embora se possa produzir a filosofia brasileira no Brasil, é possível produzir aqui uma filosofia de orientação francesa, inglesa, alemã ou estadunidense – que, aliás, é a matriz principal da produção filosófica no Brasil. Eu não gosto de definições identitárias fixas em torno das filosofias. Eu não acredito na existência de uma filosofia que seja naturalmente ou essencialmente alemã, iorubá ou brasileira. Mas acredito que podemos identificar os modos como a história do fazer filosófico, em cada lugar, determinou esse mesmo fazer. E a hegemonia acadêmica brasileira decidiu, escolheu se orientar pelos modos de produção do fazer filosófico de um determinado setor das academias francesas, inglesas, alemãs e estadunidenses.

Curiosamente, ao adotar, inicialmente, as proposições metodológicas das missões francesas na academia brasileira, não se vinculou com o fazer filosófico francês que dialogou com o pensamento africano; E isso é o que não faz de nós – ao contrário do que sugerira nosso querido professor Paulo Arantes, ao analisar um caso específico – departamentos de filosofia franceses ultramarinos.

Faz de nós apenas partidários de uma específica abordagem conservadora e reacionária da filosofia francesa. E só. “Compramos” o método estrutural pela metade. Adotamos critérios racistas de relevância, que não são existentes nem mesmo na inteireza do fazer cotidiano de departamentos de filosofia de universidades francesas, inglesas, alemãs ou estadunidenses. O problema é que tomamos esses setores que escolhemos como o todo da prática filosófica, numa caricatura perigosa do fazer filosófico.

E é aí que a filosofia africana pode ser bastante útil para repensar não apenas uma filosofia produzida no Brasil, mesmo que de origem ocidentocêntrica – para utilizar o termo de Oy?wùmí –, mas também a própria filosofia brasileira. A filosofia brasileira tem que ser herdeira de nossa história. E nossa história não é só tributária dos modos franceses, alemães, ingleses e estadunidenses de pensar.

Não se trataria, portanto de apenas ampliar o cânone, numa proposta de inclusão a um contexto já restrito, mas em pensar em outros modos de fazer a própria filosofia. As filosofias africanas, ao pensarem em condições sempre entremundos (pois, assim como os terreiros, as filosofias africanas estão menos interessadas nas alternativas excludentes do que no e isso também), se posicionam historicamente já como perspectivas plurais, abertas, diversas.

Estudar, pesquisar as filosofias africanas muda nossa relação com o próprio fazer filosófico, que se desencastela dessa posição excludente, para um genuíno interesse e curiosidade sobre os muitos modos de pensar que se afirmam pelo mundo.

 

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