"Só queremos nosso lugar ao sol!" - entrevista com prof. Dr. Eduardo Oliveira (UFBA)

Luís Thiago Freire Dantas

Professor da UERJ e integrante do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana

Adilbênia Freire Machado

Doutora em Educação (UFC) e integrante do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana

22/11/2021 • Entrevistas

A série teias ananseanas de filosofias africanas no/do Brasil segue hoje com uma entrevista feita com o professor Dr. Eduardo Oliveira (UFBA). Nesta conversa, conduzida por Adilbênia Machado e Luís Thiago Freire Dantas, Eduardo, que tem pós-doutorado em Filosofia pela UFABC, explica sobre a trilogia da ancestralidde, um conjunto de ensaios de filosofia africana, feito de um ponto de vista autorial, tendo o Brasil como origem e destino dessa reflexão. Trata-se de uma produção de filosofia desde o solo diaspórico, que dialoga com a diversidade brasileira e com potencial de diálogo com a produção filosófica mundial. Ao defender essa perspectiva filosófica, ele argumenta sobre a defesa de uma pluralidade de mundos e a necessidade de criar o mundo outra vez, mas com a coragem de propor e fazer um mundo encantado, francamente posicionado contra o racismo, o sexismo, a lgbtfobia e o classicismo.

Nessa entrevista, Eduardo defende a filosofia da ancestralidade e do encantamento como um colírio para deixar a visão livre da cegueira racista e machista que nos impediu de gozar com nossas culturas ancestrais, sobretudo africanas e ameríndias. Ele também comenta sobre o trabalho realizado pelos coletivos de filosofia africana e de filosofia da libertação latino-americana no Brasil e afirma que, do ponto de vista acadêmico, eles têm traçado uma curta, porém vigorosa, tradição filosófica brasileira. Esta série é uma iniciativa do Eixo Filosofia Africana e Afro-Diaspórica da Associação de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) e do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana da Anpof, dos quais Adilbênia e Thiago são coordenadores e integrantes, respectivamente. 

Acompanhe a entrevista abaixo.

O que é e o que representa a trilogia da ancestralidade?

A Trilogia da Ancestralidade (2021) é a reunião dos três livros que publiquei sobre o tema: COSMOVISÃO AFRICANA NO BRASIL: elementos para uma filosofia afrodescendente (2003); ANCESTRALIDADE NA ENCRUZILHADA: dinâmica de uma tradição inventada (2007); e FILOSOFIA DA ANCESTRALIDADE: corpo e mito na filosofia da educação brasileira (2007). O primeiro desenha os contornos de uma filosofia que hoje chamo de africano-brasileira, enfrentando o debate de continuidade e ruptura da cultura africana em solo brasileiro, fazendo ver, a partir de uma leitura macrossociológica de três impérios africanos, a emergência de princípios filosóficos que se verificam na experiência cotidiana das religiões de matriz africana no Brasil, reconfigurando e ressignificando nosso jogo de identidade e nossa afirmação contundente pela promoção das políticas de igualdade racial. Ancestralidade na Encruzilhada, por sua vez, é a genealogia antropológica da categoria ancestralidade, que de categoria nativa foi também utilizada como categoria analítica, abordada pelo viés de intelectuais, povo-de-santo e ativistas. Busca a arqueologia do conceito e, mais que isso, seus usos e sentidos ao longo dos últimos 100 anos da produção de discurso sobre o candomblé brasileiro.

Já o Filosofia da Ancestralidade não é um livro sobre a ancestralidade, mas desde a ancestralidade. O livro é dividido em duas partes: a primeira é uma longa etnografia da Tempo Livre[1] e do GCAP-CE[2] onde simultaneamente mostro a construção e a desconstrução do corpo através de uma antropologia dos sentidos. Corpo, Mito e Rito protagonizam experiências e reflexões durante a escrita de toda a obra, com destaque à corporeidade. A segunda parte, que deriva das experiências da primeira, deslinda-se uma semiótica do encantamento, uma filosofia da ancestralidade propriamente dita, uma pedagogia do baobá e faz uma síntese filosófica de todo o percurso, que aqui destaco passagens como o Paradigma Exu e a Filosofia do Colibri em diálogo com a Filosofia da Terra, delimitando meu lugar de enunciação e os diálogos explícitos da Filosofia da Libertação com a Filosofia Africana resultando na Filosofia da Ancestralidade como filosofia africano-brasileira.

A TRILOGIA DA ANCESTRALIDADE é, então, um esforço de apresentar ao público brasileiro o que chamei de ENSAIOS DE FILOSOFIA AFRICANA, de um ponto de vista autoral, prefigurando um conjunto de reflexões filosóficas tendo o Brasil e os afro-brasileiros e afro-brasileiras como origem e destino dessa  reflexão, na tentativa de não fazer leitura alienada de autores e autoras africanos/as, como fizemos de autores europeus, e produzir nossa filosofia desde o solo diaspórico, com clara opção étnica, mas dialogando com toda a diversidade brasileira e com potencial de diálogo com a produção filosófica mundial, afinal, só podemos entrar em diálogo com a filosofia produzida no mundo se tivermos o que dizer desde o nosso território e linguagens.

Como as filosofias da ancestralidade e do encantamento contribuem para pensarmos outros ensinos de filosofia?

Parto do princípio, hoje em dia, que a Filosofia da Ancestralidade e sua consequente Semiótica do Encantamento são universais! Explico-me: repudio completamente o argumento do “universal” como conteúdo de cultura. Desacredito de uma vez por todas em um “homem universal”, “razão universal”, “princípios universais”, “história universal”, etc. A Filosofia da Ancestralidade é universal porque constitui um fragmento da vasta produção filosófica da humanidade e, como tal, tem potencial de diálogo com qualquer latitude e longitude, reivindicando seu lugar de filosofia autoral que pensa crítica e criativamente seu horizonte histórico e se coloca à disposição para transversalizar qualquer outro horizonte de cultura. Sendo assim, afirmo, jocosamente, que apenas o contexto é universal, já que o contexto é diferente quer onde esteja. São os contextos que dialogam, portanto, uma filosofia que não respeite seu lugar de enunciação já nasce fadada ao fracasso ou ao engodo do colonialismo.

Nesse sentido, a Filosofia do Encantamento – excelente para analisar e propor outros mundos diante de um mundo desencantado – e a Filosofia da Ancestralidade – ótima para construir outros mundos possíveis recorrendo a um modo muito singular de pensar tempo e espaço – progridem para propor outros modos de ensino, desta vez, afrorreferenciados (mas que dialogam interseccionalmente com raça/etnia, gênero e sexualidade; multidisciplinarmente, já que não pode se encerrar num único campo de saber, e de maneira complexa, haja visto que enfrentar o racismo e o sexismo não são tarefas simples e são a esses problemas que a filosofia africano-brasileira se debruça não apenas para compreender, mas também para contribuir na sua superação), comprometidos com outras metodologias de ensino de filosofia, com atenção privilegiada às corporeidades e as dinâmicas efetivamente comunitárias de trabalhos de grupo, dentro e fora dos espaços formais de ensino de filosofia, estendendo-se às comunidades de axé, aos quilombos, territórios indígenas, faxinais, finais de pasto, ribeirinhos, etc. Trata-se de produzir filosofia não apenas com o autor ou autora que assina uma obra, mas entender que a Capoeira, as Religiões de Matriz Africana, o Samba-de-Roda, o Maracatu, o Cavalo-Marinho, entre tantas outras, são sujeitos coletivos de produção do conhecimento filosófico. Assumir, portanto, seu quefazer (suas linguagens, expressões estéticas, performances, princípios éticos, dimensão brincante, ludicidade latente...) é uma escolha pedagógica fundamental. Não se trata de “inovar” mas combater a miopia (ou racismo, ou sexismo, ou patriarcalismo, ou colonialismo) que nos tornaram míopes (ou cegos!) a respeito da vasta experiência dos povos africanos e afro-diaspóricos quanto ao seu saber e a difusão de sua sabedoria (onde encerra-se também o fenômeno educativo). A filosofia da ancestralidade e do encantamento são um colírio pra deixar a visão (e a percepção do corpo inteiro) livre da cegueira racista e machista que nos impediu de gozar com nossas culturas ancestrais, sobretudo africanas e ameríndias!

De que maneira o paradigma de Exu, delineado pela filosofia da encruzilhada, potencializa a construção de outros mundos?

Com o Paradigma-Exu disputo a própria anterioridade da criação do mundo e, por isso, a ancestralidade do quefazer filosófico. Não tenho dúvidas que foi em África que nasceu o homus sapiens-sapiens (um dos poucos consensos da ciência contemporânea). Consequentemente as principais invenções da tal civilização são afrorreferenciadas. Ali nasceu a astrofísica, a matemática, a linguagem gráfica (sic!), inclusive com alfabetos inscritos em pergaminhos e pedras; ali foi realizada a primeira operação cesariana (no Reino do Congo), descobriu-se os fractais, o domínio do fogo, a invenção da roda... e, obviamente, a filosofia. Isso é tão simples e ainda enfrenta tanta resistência por conta do chamado milagre grego, que teria, do nada, inventado a filosofia, a medicina, o teatro, a política... Que disparate!!! Há vida inteligente no planeta Terra antes dos gregos! Se a África é o berço da humanidade, por que não seria também a casa onde se desenvolveu, ao longo de séculos e séculos, e fruto de trocas culturais incontáveis, conhecimentos necessários para nossa existência coletiva, entre eles, a filosofia?

Como é óbvio, não acredito em um mundo mas em uma pluralidade de mundos que coabitam, tencionam-se, transversalizam-se o tempo todo. A realidade, está posta, não existe. A política é, aliás, justamente a disputa pelo real. Mas não basta interpretar o mundo como muitos mundos possíveis. É necessário assumir a re-criação do mundo, nos entender como artesãos e artesãs dele e de nós mesmos, nossas sociabilidades, nossos limites, nossas potencialidades. É necessário criar o mundo outra vez, na voz da pluralidade, no respeito e desejo às diferenças, mas não um mundo meramente relativista, mas ter a coragem de propor e fazer um mundo encantado, francamente posicionado contra o racismo, o sexismo, a lgbtfobia, o classicismo, etc. O mal não vai se acabar no mundo e por isso mesmo precisamos de filosofia. O mundo que nos foi legado pelos ancestrais é inacabado. A inconsistência do mundo é um convite para sermos demiurgos de nossa própria realidade. Precisamos, para isso, de competência e comunidade.

Como a filosofia africana, em seu âmbito de pesquisa, contribui para repensarmos a filosofia produzida no Brasil?

Faço parte de uma geração de filósofas e filósofos brasileiros(as)[3] que, a meu ver, oferece uma outra via, muito criativa e crítica, do quefazer filosófico brasileiro. Não ambicionamos hierarquizações filosóficas, muito menos praticar qualquer tipo de ascese na cultura filosófica brasileira ou internacional. Só queremos nosso lugar ao sol! Participo ativamente de coletivos da filosofia africana no Brasil e da filosofia da libertação latino-americana no Brasil que, posso dizer, já vai desenhando, do ponto de vista acadêmico, uma curta, porém vigorosa, tradição filosófica brasileira. Recentemente criamos nosso GT na Anpof, realizamos cursos, reivindicamos mesa redonda para interlocutar com a comunidade de filósofos e filósofas do país. De um ponto de vista não acadêmico, mas ligado às comunidades de prática e às comunidades tradicionais – que se configuram também em comunidades epistémicas como as comunidades acadêmicas – nossa tradição é muito mais larga que qualquer outra tradição filosófica no Brasil, pois, nunca nos foi possível ficar à margem da filosofia indígena e seus entrelaçamentos com a filosofia africano-diaspórica praticada na cotidianidade dessas experiências fundadoras do acontecimento Brasil. Somos as vozes dos povos originários e sua sabedoria; somos as vozes dos “condenados da terra” que, pela violência e escravidão sofridas, estão na melhor condição, ética e histórica,  de praticar uma filosofia como libertação!

 


[1] Ong de consciência corporal e ancestralidade africana, localizada em Fortaleza, CE.

[2] Grupo de Capoeira Angola Pelourinho – núcleo Ceará.

[3] Gostaria de citar alguns poucos nomes, dos muitos autores e autoras da filosofia africana e latino-americana no Brasil: Ivo Queiroz, Emanoel Roque Soares, Helena Teodoro, Sueli Carneiro, Wanderson Flor Nascimento, Renato Noguera, Adilbênia Freire Machado, Aline Matos, Katiúscia Ribeiro, Aza Njeri, Luís Carlos Ferreira dos Santos, Luís Ferrara, Elizeu Peçanha, Sergio São Bernardo, Aline do Carmo, Lorena Oliveira, Luís Thiago Freire Dantas, Naiara Paula Eugênio, Julvan Moreira, Fernando Sá, Rodrigo Santos, Phelipe Paz, Valter Duarte, Sérgio Luís Nascimento, Marcos Carvalho Lopes; Daniel Pansarelli, Euclides Andrés Mance, Giselle Moura Schnorr, Magali Mendes, Neusa Vaz, Aparecida Bergamachi, Rejane Matos, Hugo Matos, Rodrigo Marcos de Jesus, Alécio Donizete da Silva, Paulo Carbonari, e muitíssimos outros.

DO MESMO AUTOR

"Uma das principais contribuições das filosofia(s) africana(s) é um senso de responsabilidade teórico e social", entrevista com Aline Matos da Rocha

Luís Thiago Freire Dantas

Professor da UERJ e integrante do GT Filosofia da Libertação, Latino-Americana e Africana

24/11/2021 • Entrevistas