26/05/2020

Chamada - Revista Limiar: Dossiê Memória e Esquecimento

Volume 7, número 14, 2. semestre 2020

Dossiê Memória e esquecimento

Organização: Rita Paiva e Francisco Pinheiro Machado

A memória enquanto elemento estruturador da existência e inerente à constituição do homem irrompe em toda reflexão que indague acerca da condição humana nas suas mais diversas facetas, sejam elas concernentes à natureza do pensamento, à constituição da subjetividade, aos laços de sociabilidade, à história, à cultura. Mas o pensar sobre a memória não se constitui sem que o seu contraponto seja igualmente evocado, a saber, o processo de esquecimento, o qual, sob registros diversos, constitui quesito primordial para que que as lembranças possam de fato atuar. É justamente na dinâmica tecida por esse jogo em princípio antitético que o ato de rememoração será lido e inspecionado em vertentes teóricas distintas e também na arte. Com efeito, seja no âmbito da filosofia, das ciências humanas ou da literatura, deparamo-nos com uma inestimável tradição que toma por objeto de conhecimento e de investigação as distintas conotações assumidas pelo enlace intrigante entre o lembrar (memorar) e o esquecer.

Entre os inumeráveis momentos em que essa relação é explorada poderíamos mencionar, na literatura primeiramente, as reflexões proustianas sobre uma memória viva, a qual diversa da memória aliada aos propósitos da ação e aos esforços voluntários do pensar, só pode ser resgatada do esquecimento pelo contato com elementos sensíveis que atualizem acontecimentos insertos num tempo perdido, cuja revivescência nos põe em contato com o existir em sua mais radical vivacidade. Na psicanálise, particularmente nos textos freudianos, a memória, cuja instância se forma em concomitância com a instauração do princípio de realidade e mesmo do aparelho psíquico, constitui-se como um universo de traços inconscientes, aptos a se atualizarem sob formas e variabilidades inesgotáveis. Ademais, mantém-se ela em tensão perpétua com o esquecimento, seja quando inscrita no desejo que retorna, a despeito do recalque, disfarçada na forma do sintoma, – e portanto sem poder ser esquecida - seja quando reconstruída – num lembrar em que se tinge de novas significações - na luta contra a resistência e no elaborar inerente ao processo de análise, viabilizando assim a libertação e a reinvenção de um eu presente e a reconstrução de um eu passado.

Voltando-nos para a história da filosofia, entre tantas possibilidades, valeria evocar os seus primórdios, mais especificamente os diálogos de Platão e sua teoria da reminiscência. Para o filósofo o caminho que leva à superação das ilusões sensíveis, ao conhecimento dos imutáveis e igualmente ao aprimoramento moral requer a superação do esquecimento no qual mergulharam as almas, antes de seu retorno ao mundo humano, ao beberem das águas do rio Lethe. O rememorar da visão parcial que uma vez tiveram das ideias ou das formas puras vem justificar o anseio humano pelo conhecimento.

No que toca à filosofia contemporânea, seria pertinente a menção à obra bergsoniana, a postular que a consciência é memória. Memória que deve em grande parte ser contida – esquecida, pois - para que a atenção à vida prática possa se consumar, mas também a memória enquanto totalidade concentrada que não se dissocia da percepção, ou ainda a memória que, com seus diferentes planos, permite que transitemos pelas infinitas gradações que perfazem a distância entre o mundo do sonho e o mundo da ação. Também Nietzsche ao refletir, com seu método genealógico, acerca da instauração dos valores morais, debruça-se sobre o papel da memória; ressalta, assim, sua importância no processo que transforma o homem em ser sociável, caracterizado por uma conduta regida por padrões morais socialmente estabelecidos, os quais não devem ser esquecidos. Nessa direção, ao pensar a vida saudável e forte, aponta a relação entre o ressentido e sua incapacidade de esquecer, sua memória monumental que o paralisa para o agir e para o criar. O homem capaz de inventar caminhos verdadeiramente novos para a existência, os novos valores é, pois, aquele capaz de esquecer. Leitor tanto de Nietzsche, quanto de Freud e Proust, Benjamin reflete esta relação dinâmica entre memória e esquecimento no contexto coletivo e histórico da crise da experiência na modernidade e da catastrófica situação política do entreguerras. Os diagnósticos e as buscas de alternativa revolucionária para esta situação são pensadas por ele, seja inspirado no materialismo histórico, seja nas experiências das vanguardas artísticas ou na teologia judaica, sempre em termos da tensão crítica que a rememoração pode estabelecer oportunamente em um presente que se vê interpelado por promessas de liberdade reprimidas no passado e relegadas à força ao esquecimento. A memória do passado visaria, assim, transformar o presente, suspendendo a violência que desde então não cessou de vigir, sendo esta suspensão a base para um verdadeiro esquecimento feliz. Paul Ricoeur, por seu turno, envereda por registro múltiplos e transdiciplinares para problematizar a memória não apenas como o recurso que liberta dados mnemônicos do esquecimento, mas como instrumento que conduz a uma nova significação dos fatos e dos acontecimentos, de sorte que rememoração e reconfiguração não se dissociem jamais. O esforço do lembrar – entendido como exercício de memorização – delineia-se, pois, como um árdua luta contra o esquecer.

Os pontos aqui destacados não são mais do que pontas num iceberg inexaurível, no qual se inscrevem as trilhas percorridas pelo pensamento que interroga a relação entre memória e esquecimento.

Nosso intuito consiste em organizar um volume da revista Limiar que tenha como fio condutor a problematização desta prolífica relação, não só do ponto de vista da história da filosofia e da literatura, mas também como reflexão e compreensão crítica do obscuro contexto político que viceja em nosso mundo hodierno. Aqueles que se interessarem em refletir sobre esse tema, devem enviar seus artigos para os endereço eletrônicos abaixo. Resenhas e traduções sobre o tema serão igualmente bem-vindos.

Os artigos serão recebidos até 30.09.20.

Submissão preferencialmente pela plataforma da revista:

https://periodicos.unifesp.br/index.php/limiar/announcement/view/205

Informações e submissão: paiva.rt@terra.com.br ; fapmachado@unifesp.br ; limiarunifesp@gmail.com ; limiar@unifesp.br